22 de maio de 2020

O último brasileiro



Escrevi este texto meses atrás, muito antes do fim do universo, quando viajar para qualquer lugar parecia uma possibilidade e o futuro parecia uma possibilidade. Continuaria a certo ponto. It wasn't meant to be. Mas vou deixar aqui o que ficou pronto.

* * *

Mayconssuel Kayke Ferreira arrumou a mochila com tudo o que precisaria para a viagem: três camisetas (duas regatas), duas bermudas, par de Havaianas, zero cuecas, zero meias. Conspícuas as ausências de quaisquer produtos de higiene pessoal (desodorante, escova de dentes, sabonete), embora tenha feito questão de procurar pelo par de Oakleys por desconfortáveis sete minutos até notar que estavam em sua testa. Mayconssuel saía da sua casa, no Tanque, na Zona Oeste do Rio de Janeiro quando cruzou com Carlinhos, que o cumprimentou.

— Fala, Mayc. Porra, mlk, vi tu lá na paradinha lá. Tu tava com a mulezinha.
— Porra, mlk, cheguei lá e a mulezinha já tava lá. Falei: mermão, fudeu.

As frases pareceram carregar profundo significado para os dois. Mayconssuel subiu em sua Shineray XY 125.

— Tu vai lá na praia lá de tarde? — perguntou Carlinhos.
— Porra, nem sei, mermão.

Mayconssuel não tinha qualquer plano de ir. Para aplacar o tédio, decidiu fazer uma jornada para o Sul do Brasil, sozinho, em sua moto. Plano que funcionou perfeitamente bem por um dia — tempo que levou para sair do estado do Rio de Janeiro, atravessar São Paulo e chegar a Curitiba.

Pobre diabo, o infeliz carioca se viu completamente despreparado para enfrentar o nível inumano de frio da capital paranaense. Ao atravessar com sua Shineray um paredão de neblina fria na Avenida Marechal Floriano, Mayconssuel emergiu do outro lado já sem movimentos. Petrificado, cristalizado. O frio absoluto curitibano fazia mais uma vítima.

* * *

— Bom vê-lo despertar.

A voz que dizia aquilo era doce e suave, mas o rosto de onde eram emitidos aqueles sons não se movia. Em verdade, não havia nada sendo efetivamente falado. A mensagem era transmitida direto ao subconsciente, de modo inteiramente empático.

— Imaginávamos que despertaria em torno deste momento. Foi um longo sono. Estamos prontos para tê-lo de volta.

Mayconssuel olhou ao redor. Estava deitado sobre uma cama. As linhas do recinto eram suaves. A figura que falava com ele, um homem magro de corpo definido e roupas aderentes à pele, flutuava a poucos centímetros do chão.

O homem colocou sobre a mesa uma garrafa com um líquido que parecia conter todas as cores do espectro. Mudava de cor com a mínima alteração no ângulo de observação. Parecia ser uma porta para observar as estrelas. Seu recipiente estava perfeitamente equilibrado sobre a mesa embora não possuísse achatamento na parte inferior. O homem buscou uma taça onde colocaria a bebida.

— Você é o último brasileiro do universo — disse o homem, oferecendo a taça a Mayconssuel. — Você terá muito o que ver ainda. Mas, por ora, beba. Este drink é o coração do universo.

Mayconssuel pegou a taça com a mão esquerda. Molhou o dedo mindinho da direita com a bebida. Era gelada. Ele colocou o dedo na boca. O sabor era doce e suave. Virou a taça de uma vez só e se dirigiu ao homem.

— Ô, meu diplomata. Pega uma camisinha lá pra botar essa garrafa, porra. Essa porra vai esquentar já-já. Haha, tomar no cu, parece que sei lá.

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