21 de junho de 2020

A anti-jornada

Black Hammer - Doctor Star
[Parte 1/?]

1

Como chegamos aqui? No chão, neste instante, vemos um sujeito, mãos por trás da cabeça, quase que em posição fetal, enquanto uma ambulância está no céu, voando em sua direção. Cerca de três pedestres observam o evento extraordinário que transcorre próximo à estação Carioca no centro do Rio de Janeiro.

Segundos antes, um bueiro explodia e o motorista da ambulância perdia o controle do veículo. Quando estava prestes a assumir o controle de volta, um soldado da PMERJ que andava casualmente pelo entorno, assustado com o barulho de pneus cantando contra o asfalto, rapidamente ergueu seu rifle e deu tiros em 4 direções diferentes. Nesse ponto, o motorista da ambulância perdia o pouco controle que havia recuperado e batia as rodas contra um meio-fio. O carro voava. E agora, estava no céu, prestes a esmagar o pobre coitado que estava em seu caminho, caminhando até o metrô.

2

Cinco horas antes, Marcos Alves de Cerqueira (MAC, eventualmente apenas Mac) estava sentado em seu computador no trabalho. Enquanto Analista de Excel, Marcos chega às 9h da manhã e, abre o Excel e começa a digitar =SOMASE. Muitos =PROCV e =PROCH depois, ele sai do serviço. Com sorte às 18h. Em dias normais, sabe Deus. Um dínamo de produtividade, alguém que devia ser mais valorizado desde que nós, enquanto espécie, fizemos as pazes com o fato de que todo trabalho é digitar dados no Excel. Ao digitar no Excel, sonhos se tornam reais, os desejos humanos são tirados do éter e materializados. Com suficientes planilhas, smartphones são criados, carros são montados, foguetes enviados ao espaço.

— Faaala, seu ordinário. — Flávio "Caça" Caçapava tinha esse jeito eminentemente irritante de se aproximar. Falando, chegava perto de quem estivesse trabalhando e massageava a nuca do infeliz.
— Pô, Caça, tô trabalhando. Olha o tanto de Excel que tem pra hoje.
— Bicho, só quero saber se a gente vai sair depois disso aqui, hoje você tá fazendo 8 anos de empresa. Moleque, isso não é pra ninguém. Como tu ainda não é Supervisor de Excel? Mas a gente tem que comemorar.

Marcos concordou em sair pós-expediente para pelo menos parar com a massagem na nuca. Mac e Caça se conheciam há cinco anos. Mac era o melhor amigo de Caça. Caça não era o melhor amigo de Mac. Esse era o relacionamento que os dois mantinham.

Apesar de várias células que ainda gritavam para ser preenchidas na tela do computador, Mac decidiu colocar a bolsa nos ombros e sair do trabalho às 18h30, antes que Caça saísse da copa, onde aparentemente enfrentava um problema com o pedal da lixeira, e saltitou acelerado até o elevador do prédio. Antes que a porta fechasse, porém, Caça colocou o braço entre as portas encontravam. Elas se abriram novamente e ele deslizou para dentro como uma enguia.

— Tava gritando pra tu segurar, ouviu não? — perguntou Caça.
— Ouvi nada.
— Pra onde a gente vai?
— Bom, vamos lá na Cinelândia tomar um chopp. — Mac estava resignado. — Antes, deixa eu ir no banheiro aqui do prédio.

E, para escapar do compromisso, Mac correu para o banheiro do prédio. Ao sair, vendo Caça deslizando freneticamente todas as fotos do Tinder para a direita, viu ali sua chance para sair pela porta de trás do edifício, circular o quarteirão, chegar no metrô e talvez chegar na Zona Oeste antes das 10.

Escapulindo, depois de dar precisamente 18 passos ao longo da calçada, Mac foi surpreendido por um absurdo clarão no céu, daqueles que só vemos gravados por dashcams na Rússia.

Numa fração de segundo, uma espécie de portal se abre cortando o corpo de Mac na vertical, exatamente ao meio — invisível de frente, óbvia pelos lados. Esse portal, se é que se podia chamá-lo assim, era como a superfície de um lago em que centenas de pedras foram jogadas ao mesmo tempo com o intuito de quicar até o mais longe possível. Num instante, desapareceu. Mac parecia ter mudado, embora fisicamente permanecesse igual.

As bordas do ambiente ali, no RJ central, pareciam se desmanchar naquele fim de tarde. Não era o sol, que sumia, era a realidade se desfazendo.

Explodem vários bueiros pela cidade, o que em geral não seria grande surpresa senão pelo número. Um deles perto de Mac.

O motorista da ambulância Unimed que circulava por ali no momento, sem carregar ninguém, pensava em ligar a sirene para cortar o trânsito caótico do horário quando o mundo pareceu vir abaixo. O motorista perdeu o controle, desviou do bueiro explosivo, se assustou com o tiro do PM e capotou o carro.

Mac sequer notou o evento paranormal por que havia passado logo antes de perceber a viatura médica piruetando em sua direção.

3

Neste instante, a ambulância está parada no céu. Não, ela não está parada no céu por instrumento narrativo obtuso. Ela está literalmente alçada no céu enquanto o tempo transcorre. Um brilho fraco emana de Mac, que está no chão, turtling.

Passam dez segundos e a morte não vem. Nenhum sangue em vista. Mac se levanta e segue com três batidas higiênicas na calça jeans. Olha para trás e a ambulância ainda flutua no céu. O motorista, lá dentro, parece ter caído de cara no para-brisa quando o cinto de segurança afrouxou por conta da falta de impacto. Olhos arregalados para a cena de outro mundo, Mac abriu os braços num reflexo, que foi acompanhado pela ambulância que foi totalmente despedaçada.

Não destruída como num impacto ou como se algo cortante a tivesse atingido. Foi gentilmente desmontada. Suas roscas e parafusos caíram inteiros no chão. O motorista foi assentado gentilmente na calçada. Os pneus foram as únicas coisas que caíram do céu com relativa violência.

Mac olhou para os lados, suas mãos estavam envoltas por um efeito fogoso inacreditável — inacreditável porquê ridículo, CGI de baixa qualidade. No entanto, era real.

Caça, a alguns passos de distância, testemunhou tudo. Boquiaberto, derrubou uma pasta, que espalhou várias folhas com planilhas impressas intituladas “Análise/Excel — JUN”. Correu para perto de Mac.

— Maluco. Irmão. Tu tem superpoderes.
— Cala a boca, ô retardado. Tem nada disso aqui, não. — Mac estava atordoado. Normalmente ele manteria a diplomacia com um colega de trabalho.
— Moleque, tinha faísca saindo da tua mão. Olha o que aconteceu aqui, esse monte de porcariada espalhada pelo chão.
— Bicho, pelo amor de Deus, vamos embora daqui.

Mac acelerou o passo. Caça foi buscar a papelada caída no chão e correu para alcançá-lo a seguir.

— Como isso rolou? Você descobriu isso agora? O que aconteceu? Como tu nunca me contou que podia, sei lá, destruir coisas com o poder do pensamento? É isso? — Caça não largaria o osso.
— Não tem nada acontecendo, eu não descobri nada e você não viu nada.
— Fala sério, porra. O que você vai fazer com essa parada agora?
— Não tem nada pra fazer, bicho. Tá achando que eu sou americano? Que eu vou virar herói. Não tem “história”, não tem “jornada” aqui. Brasileiro vai pra casa e preenche umas planilhas durante a semana.

Mac entrou na estação da Carioca deixando para trás não só Caça, mas também uma aglomeração quase festiva de gente querendo saber o que tinha acontecido. Faróis estavam inteiros no chão. A maca da ambulância repousava calmamente sobre o asfalto. Um engarrafamento se formava. O motorista da ambulância estava em choque.

Marcos Alves de Cerqueira estava em pé no metrô. O sistema de som anunciava “Estação Cardeal Arcoverde” e ele ficou examinando atentamente a própria mão como um jogador inspeciona sua arma em Counter-Strike: GO ao apertar F.

— Superpoderes? Isso aqui não é Nova York, filhote. — murmurou.

[Continua]

20 de junho de 2020

Drama USA

One Piece resumido

Americanos vivem em uma história, numa vida perfeitamente artificial, na qual o mundo inteiro se espelha. Estados Unidos são o teatro do planeta, a free speech zone — convenientemente, o lugar que mais protege o livre discurso.

Se, com frequência, o brasileiro ou o europeu se surpreendem com a falta de conhecimento do americano médio sobre o resto do mundo, é simplesmente porque quebraria a quarta parede se fossem escolados demais sobre o universo aqui fora. Os EUA são o cercadinho onde o mundo vê suas fantasias. O personagem não conversa com a audiência.

Os americanos nascem e são jogados imediatamente na jornada do herói, com seu arco de queda e redenção. É tudo tão relatable.

Bolsonaro? É apenas um Donald Trump dos trópicos. O brasileiro assiste aos americanos na TV, xingando ou elogiando Trump, e pensa "wow, they are literally me". Até o Bolsonaro acredita que é literalmente Trump. Todos discutimos sobre gênero, manspreading e bropriating como perfeitos americanos falidos por empréstimos estudantis.

O arco da pandemia não teve forças para resistir a mais de uma temporada, então voltamos para uma saga antiga mas que deixou o público com gostinho de quero mais, a fan favorite, Black Lives Matter.

Era o que todos nós, não-americanos, precisávamos para sair às ruas. Uma história americana perfeitamente coreografada por americanos. Que montagem. Finalmente tivemos algo que nos incitasse realmente a protestar contra a violência policial no Brasil. Eventos brasileiros não são tão bem filmados.

Há algum tempo, estudar no Múltipla Escolha e tomar suco com a rapaziada no Gigabyte eram perfeitas metonímias da vida no Brasil, não importa o quão distantes estivessem da vida do brasileiro médio. E, assim como Malhação, o bairro do Limoeiro da Turma da Mônica tem lá seu je ne sais quoi que nos enfeitiça a acreditar que aquilo se trata realmente do Brasil. A artificialidade da construção desses settings não tem qualquer importância.

Mas esses são modelos de uma época que passou. Hoje nós somos os EUA. Olhamos para seus ônibus escolares amarelos e pensamos "wow, that is literally me".

1 de junho de 2020

The virus

by Erick, age 32
From They are Shouting Desperate Buried in the Pillow

The virus
It destroyed this country
Yes
YES
The virus is out

22 de maio de 2020

O último brasileiro



Escrevi este texto meses atrás, muito antes do fim do universo, quando viajar para qualquer lugar parecia razoável e o futuro era um oceano de possibilidade. Continuaria a certo ponto. It wasn't meant to be. Mas vou deixar aqui o que ficou pronto.

* * *

Mayconssuel Kayke Ferreira arrumou a mochila com tudo o que precisaria para a viagem: três camisetas (duas regatas), duas bermudas, par de Havaianas, zero cuecas, zero meias. Conspícuas as ausências de quaisquer produtos de higiene pessoal (desodorante, escova de dentes, sabonete), embora tenha feito questão de procurar pelo par de Oakleys por desconfortáveis sete minutos até notar que estavam em sua testa. Mayconssuel saía da sua casa, no Tanque, na Zona Oeste do Rio de Janeiro quando cruzou com Carlinhos, que o cumprimentou.

— Fala, Mayc. Porra, mlk, vi tu lá na paradinha lá. Tu tava com a mulezinha.
— Porra, mlk, cheguei lá e a mulezinha já tava lá. Falei: mermão, fudeu.

As frases pareceram carregar profundo significado para os dois. Mayconssuel subiu em sua Shineray XY 125.

— Tu vai lá na praia lá de tarde? — perguntou Carlinhos.
— Porra, nem sei, mermão.

Mayconssuel não tinha qualquer plano de ir. Para aplacar o tédio, decidiu fazer uma jornada para o Sul do Brasil, sozinho, em sua moto. Plano que funcionou perfeitamente bem por um dia — tempo que levou para sair do estado do Rio de Janeiro, atravessar São Paulo e chegar a Curitiba.

Pobre diabo, o infeliz carioca se viu completamente despreparado para enfrentar o nível inumano de frio da capital paranaense. Ao atravessar com sua Shineray um paredão de neblina fria na Avenida Marechal Floriano, Mayconssuel emergiu do outro lado já sem movimentos. Petrificado, cristalizado. O frio absoluto curitibano fazia mais uma vítima.

* * *

— Bom vê-lo despertar.

A voz que dizia aquilo era doce e suave, mas o rosto de onde eram emitidos aqueles sons não se movia. Em verdade, não havia nada sendo efetivamente falado. A mensagem era transmitida direto ao subconsciente, de modo inteiramente empático.

— Imaginávamos que despertaria em torno deste momento. Foi um longo sono. Estamos prontos para tê-lo de volta.

Mayconssuel olhou ao redor. Estava deitado sobre uma cama. As linhas do recinto eram suaves. A figura que falava com ele, um homem magro de corpo definido e roupas aderentes à pele, flutuava a poucos centímetros do chão.

O homem colocou sobre a mesa uma garrafa com um líquido que parecia conter todas as cores do espectro. Mudava de cor com a mínima alteração no ângulo de observação. Parecia ser uma porta para observar as estrelas. Seu recipiente estava perfeitamente equilibrado sobre a mesa embora não possuísse achatamento na parte inferior. O homem buscou uma taça onde colocaria a bebida.

— Você é o último brasileiro do universo — disse o homem, oferecendo a taça a Mayconssuel. — Você terá muito o que ver ainda. Mas, por ora, beba. Este drink é o coração do universo.

Mayconssuel pegou a taça com a mão esquerda. Molhou o dedo mindinho da direita com a bebida. Era gelada. Ele colocou o dedo na boca. O sabor era doce e suave. Virou a taça de uma vez só e se dirigiu ao homem.

— Ô, meu diplomata. Pega uma camisinha lá pra botar essa garrafa, porra. Essa porra vai esquentar já-já. Haha, tomar no cu, parece que sei lá.

29 de setembro de 2019

Brazilian Studies



Dr. Oscar Söderström observava atentamente sua prancheta, envolta cuidadosamente por seu braço esquerdo. Como um metrônomo, tocava a ponta de sua caneta na superfície do papel, ritmado, sem uma palavra ser escrita. Toc-toc-toc que enlouquecia a figura lânguida de Joaquim Silvério da Silva e Silva, que encarava a cena com uma testa rugosa & reluzente, de poucos cabelos restantes e quase tão pouca roupa cobrindo, sim, suas vergonhas.

Naquela manhã quente, Joaquim já contava duas?, três?, possivelmente três horas e meia em que estavam ele e mais duas dúzias de descamisados enfileirados naquilo depósito. Era um local branco, de luzes tubosas suspensas, que poderia ser chamado de laboratório, dando alguma latitude à linguagem. Frigorífico, porém, descreveria melhor a sensação do ambiente, se não suas características sensoriais mais óbvias.

Söderström chamou o infeliz diretamente à frente de Joaquim para análise minuciosa. Apontou um feixe de luz para um dos olhos do rapaz — claramente 20 anos mais jovem, mínimo, que Silva e Silva. Descansou o raio de iluminação por desconfortáveis minutos, enquanto o sujeito era admoestado a permanecer com os olhos abertos.

Söderström se voltou novamente para a prancheta. Pescou um dos lados de seu bigode e começou a tateá-lo com a ponta do indicador e polegar. Pelas contas de Joaquim SSS, era a sétima vez que aquilo acontecia no dia. O funcionamento do cacoete era tal: Söderström puxa uma das extremidades do bigode e a enrola cuidadosamente, até que o embaraço começa a se desfazer. Sobra uma ponta de pelo presa entre seus dedos que o cientista (?) puxa ao ponto máximo, como se fosse arrancar. Depois de segundos desse cabo de guerra, solta, sem jamais arrancar a pelugem. Frequentemente, recomeça o processo do lado contrário do rosto enquanto examina os dados escrevinhados.

Ao final da fila, alguém começava a fazer barulho. Uma perna saía da formação. Uma lâmpada vermelha começava a piscar acompanhada de um bipe repetido. Söderström ignorava.

* * *

Tudo começou com um refrão.

— O brasileiro precisa ser estudado!

Ninguém sabe qual o catalizador da reação. Talvez um brasileiro inusitadamente assando uma carne numa churrasqueira improvisada com os amigos numa rodovia engarrafada. Possivelmente, algum letreiro de lanchonete suburbana que fazia um trocadilho com uma marca famosa. Em algum ponto, um brasileiro preparou algo revoltante para comer e postou na internet. E assim, observadores repetiam o bordão, ad nauseam:

— O brasileiro precisa ser estudado!

Ocasionalmente remixado:

— O brasileiro precisa ser estudado pela NASA!

Afirmativa que, se inicialmente ignorada pela Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço, começou a causar perplexidade em cientistas e em engenheiros pela persistência. Será? Seria possível que um povo realmente precisasse ser estudado dessa maneira? Se a NASA nunca havia considerado um estudo daquela magnitude, era algo que paulatinamente entrava nos Corações e nas Mentes dos funcionários da autarquia.

— O brasileiro precisa ser estudado!

A recorrência dá corpo à palavra. A frase repetida ganha status de necessidade, empresta urgência ao chamado à ação.

— O brasileiro precisa ser estudado!

Ações tornam as crenças mais reais, palpáveis, delineáveis. Ao transformar crenças em atos, elas se materializam em dogma. O brasileiro começou a ser estudado.

* * *

Joaquim Silvério da Silva e Silva havia chegado (alguns diriam "chegara") à frente de Oscar Söderström. Instruído a permanecer parado, teve suas narinas medidas, suas orelhas puxadas, alongadas, perfuradas. Curiosamente, seu crânio não foi examinado — a frenologia é uma pseudociência. A certo ponto, Söderström prostrou-se para buscar uma bola de futebol, que arremessou à altura do peito de Joaquim. Aparentemente, um teste comum — os pesquisadores pareciam muito interessados em que situações estimulariam o brasileiro a estabelecer controle sobre a bola de futebol, fazendo embaixadas. Numa estação a 15 metros, o mesmo teste era feito onde, por reflexo, segurava a bola arremessada em sua direção com as mãos, para desapontamento claro do cientista encarregado.

SSS era mais safo. A face fechada de Söderström só se iluminava em certas situações e Joaquim sabia que (1) matar a bola no peito, (2) dar dois toques para cima com os pés, (3) equilibrar a bola na cabeça e (4) deixá-la escorrer para o chão seria um curso de ação que lhe compraria favor naquela situação lamentável.

Numa maca metálica a cerca de 40 metros, outro homem gritava, dissecado por um sujeito com um jaleco que trazia uma bandeira russa. O eslavismo da fisionomia do pesquisador se mostrava em toda a glória quando, ao abrir o peito do brasileiro estudado com um bisturi, ele sacava um baralho e jogava cartas sobre a mesa. Surpreendentemente, o brasileiro estudado não trazia nenhuma reação pitoresca.

A fila que culminava em Söderström continuava a se desorganizar na ponta final. A lâmpada piscante acelerava seu compasso e o bipe começava a ficar ensurdecedor. Söderström puxava o lado esquerdo de seu bigode. Acima, um letreiro preto trazia em letras formadas por círculos brancos que rolavam na horizontal: "O BRASILEIRO PRECISA SER ESTUDADO".

* * *

A pressão pelo Estudo do Brasileiro surgiu, em carga memética, nos anos 10, mas visto que os germes de sua ascensão já existiam desde os anos 1960, era natural que o Novo Brasilianismo tivesse como ponto de partida o velho. A Comunidade Científica se voltou para os trabalhos de Kenneth Maxwell, Thomas Skidmore, Robert Levine. Encontrando pouco lastro para responder a questões prementes que ocupam a mente moderna, como o motivo pelo qual o brasileiro instalou um sistema de som excessivamente grande numa moto de 150 cilindradas, pesquisadores procuraram métodos mais diretos de exame da mente botocunda.

Apesar da pressão pelo envolvimento da NASA, quem se mostrou mais inicialmente receptivo a esse call to arms aos estudos brasileiros foram os europeus — provavelmente órfãos da mentalidade colonial exploratória tão cara ao imaginário do século 19. E, se no princípio choveram antropólogos, sociólogos e até economistas interessados no fenômeno brasileiro, logo as hard sciences se envolveram no imbróglio. Europeus de Oxford, Cambridge, EPFL, PSL enviaram emissários, que foram seguidos de chineses, de Tsinghua e Pequim, e demais países asiáticos, receosos de perder a próxima onda do futuro.

Em solo nacional, os brasileiros se viam mais que felizes com a atenção estrangeira encontrada, sempre tão almejada e por décadas além do alcance. Os pesquisadores, amigáveis nos primeiros meses, ficavam crescentemente confusos e irascíveis com a falta de respostas. O primeiro incidente que envolveu o uso da força se deu com pesquisador cingapuriano da Universidade Tecnológica de Nanyang, irritado sobremaneira por um brasileiro que não oferecia respostas satisfatórias para seu hábito de retirar o silenciador do escapamento de todas as motos Honda 125cc que já havia possuído. Chocante, o caso acabou com a morte do pesquisador, o brasileiro ferido, a moto em questão roubada por terceiros não relacionados que passavam pelo local no momento da altercação.

* * *

Americanos mudaram a dinâmica. Relutantes em se envolver com um país que ativamente deseja ser invadido (em geral, preferindo a resistência ativa), os EUA se viam atrasados na corrida pelo estudo do brasileiro, com a promessa de bonança e conhecimentos mil. Não só foi difícil desenvolver o consenso político para o envio de pesquisadores, por muito tempo o povo americano relutava em enviar cientistas aeroespaciais ao país, incapazes de compreender uma demanda dessa natureza específica.

Com toda a pompa, os americanos estacionaram um porta-aviões na costa do Rio de Janeiro e enviaram suas tropas científicas para a terra. Um grupo de cinco, que foi o primeiro a pisar na praia, avistou um aglomerado de brasileiros. Um dos cariocas preparava linguiças numa grelha montada sobre o motor de seu carro com o capô aberto. Laura Grisham foi o nome da bióloga que ficou na história porque, ao ver aquela cena aterrorizante, sacou seu comunicador, um pequeno walkie-talkie e, informam múltiplos relatos, calmamente descreveu o que se passava e que uma tomada era justificada.

Não se passou meia hora e os coturnos pisavam no solo brasileiro. Militares americanos começaram a plantar placas no chão que traziam o ícone de um livro e uma caneta e eram acompanhadas da inscrição "O BRASILEIRO PRECISA SER ESTUDADO". Itálico no original.

Voltaram-se para todos os presentes naquela praia carioca e começaram a detê-los. Os que tentaram fugir foram abatidos. Alguns continuaram a jogar altinho enquanto amigos e familiares eram mortos.

* * *

Depois do que se convencionou a chamar de Dia E (de Estudo), os governos de outros países perderam qualquer pudor e seguiram a invasão americana com suas ocupações. Recife foi sitiada por holandeses, realizando um antigo desejo dos locais de serem recolonizados pela prévia metrópole. Conta-se que os pesquisadores de Wageningen em particular, com seus extensos conhecimentos em meio ambiente e agricultura, fizeram diversos avanços nos campos da fertilização do solo utilizando materia orgânica retirada de corpos de brasileiros.

Franceses construíram feudos de estudos que se estendiam da Bahia até o Maranhão, centros de excelência que mantinham, a qualquer dado momento, milhares de brasileiros-cobaia. Ingleses não tiverem pudores em reposicionar as fazendas do Centro-Oeste, em que humanos brasileiros passaram a fazer as vezes de gado.

Chineses? Confortáveis com o novo arranjo, estabeleceram bases em Minas Gerais e no Espírito Santo, completas com toques de recolher, câmeras e pôsteres com frases de Xi Jinping que estimulavam a industriosidade no estudo aprofundado do brasileiro. Cogita-se que, em breve, expatriarão os uigures para o Brasil, combinando valiosas massas humanas para pesquisa biogenética.

Os Estados Unidos tomaram do Rio ao Sul do país e se tornaram overlordes ciumentos dos novos protetorados, sempre vigiados com drones, onde os locais passaram a andar com piscantes tornozeleiras para onde quer que fossem — para seus dormitórios, para os Centros de Triagem ou para os Núcleos de Observação do Brasileirismo.

Embora as operações americanas de controle, arregimentação, desmembramento, dissecação, biópsia e alteração genética de brasileiros por parte de americanos se concentrassem na seção sul do Brasil, evento tanto curioso é que estabeleceram base em Alcântara, próxima a São Luís do Maranhão. Lá, alocaram-se os pesquisadores da NASA, que buscaram fazer pesquisas tanto mais heterodoxas.

No Centro de Lançamento de Alcântara, tutelado inteiramente pela NASA, agora se lê: "Uma janela para os estudos do brasileiro no espaço". Próximos projetos envolvem catapultar múltiplos brasileiros em direção ao Sol.

* * *

Dr. Oscar Söderström em nenhum momento fez contato visual com Joaquim Silvério da Silva e Silva. Sua interação era perfeitamente profissional, guiada pelos perfeitos princípios da Pesquisa Científica. O método não admitiria poluição e o exame de Silva e Silva precisava ser minucioso. Sua estada no Núcleo de Observação já durava 44 dias; a cobaia se agarrava ao fato de que muitos deixavam o local depois de cerca de dois meses. Não se sabe para onde iam, se iam para qualquer lugar, e nunca houve promessas de qualquer um dos encarregados, mas era uma luz.

Söderström sacou uma serra elétrica portátil e a aproximou da perna direita de Joaquim, diretamente acima da artéria femoral, como se, numa só tacada pretendesse decepar seu membro mas, falhando, causaria a morte de qualquer maneira.

Os olhos de Joaquim se abriram, atônitos. Suas pupilas pareciam minúsculas. Num movimento só, levantou um de seus braços magros esponjosos e o balançou desajeitadamente para forçar Söderström a derrubar seu utensílio. Tendo desarmado o cientista, Joaquim fez algo próximo do que convencionaria chamar correr, but not quite, e procurava uma das portas.

A desordem no final da fila pareceu ebulir com o ataque de Joaquim. Inicialmente três pularam as grades de contenção, que organizavam as filas para os exames, nocautearam os dois guardas que policiavam o local e passaram a circular como baratas pelo laboratório. Sua empolgação contagiou os demais. Um dos guardas ainda conseguiu se recuperar e buscou conter aqueles atos de, pode-se definir, terrorismo. Agarrando-se a um dos objetos de teste, acabou cercado por outros brasileiros. No canto, alguns ensaiavam um grito de "Uh, vai morrer!".

Söderström calmamente se levantou e se dirigiu até o painel com a lâmpada que piscava. Apertou um botão que fez com que o bipe cessasse. Precisamente três segundos se passaram até que entrasse um time de cinco novos e mais bem equipados guardas, em trajes pretos em vez dos convencionais azuis, e capacetes com grandes olhos brancos que brilhavam. Cada um portava um rifle Ak 5C, praxe para as Forças Armadas da Suécia, que foram habilidosamente utilizados para abater todos os amotinados.

Joaquim Silvério da Silva e Silva havia sido o primeiro a chegar numa das portas do galpão laboratorial. Ele apertava a barra que servia como fechadura e se abriria para fora. Ao ver o primeiro raio da luz do dia passar pela fresta, ela passou a ser bloqueada pela figura de um capacete preto.

Joaquim não foi baleado. Primeiro, ele levou um chute frontal no tórax que o fez cair e provavelmente quebrou uma das suas numerosas costelas que pressionavam contra a pele. Depois, aí sim, foi baleado.

Antes de morrer, seus olhos reflexivamente pousaram sobre um letreiro preto de letras formadas por círculos brancos. O letreiro era defeituoso e piscava apenas o trecho "SA SER ESTU".

Das cerca de duas dúzias de brasileiros, vinte já haviam sido eliminados e os restantes submetidos pelos guardas. Söderström suspendeu novamente sua prancheta. Começou a tocá-la com a caneta. Toc-toc-toc. Ato contínuo, sem suspender os olhos do conteúdo daquelas folhas, falou numa voz anormalmente alta e esganiçada, que não parecia combinar com o formato da sua face: "O BRASILEIRO PRECISA SER ESTUDADO". A frase não se dirigia para ninguém em específico. O cientista russo, que não havia se movido de junto à maca com o corpo aberto durante toda a situação, franziu uma das sobrancelhas.

Söderström colocou a prancheta sobre uma mesa metálica e começou a puxar novamente o bigode pelo lado esquerdo do seu rosto. O embaraço dos fios se desfez precisamente quando ele terminou de preencher um dos campos da folha. Levantou, buscou sua caneca, que havia estado esquecida durante boa parte da manhã próxima a um dos computadores, e deixou o laboratório.

No formulário anexado à prancheta, no campo Distúrbios Mentais do Brasileiro, se lia:

✔ DRAPETOMANIA

31 de dezembro de 2018

A arquitetura do eterno



No 31 de dezembro, eu me encontro do final do Tempo. Não há nada depois deste momento, então só nos resta recordar o que ocorreu no resto do Tempo, quando o universo ainda ocorria.

Num desenvolvimento surpreendente de eventos, pretendo me mudar para São Paulo. Lembro de anos remotos, vivendo, como a maior parte dos capixabas, no Espírito Santo. Até que ocorreu a diáspora do nosso povo. Espalhados pelo mundo, sem um senso de identidade, vivemos numa busca incessante por uma sentido que inexiste além da crença de que nós, sim, nós não temos sotaque.

Como um absoluto idiota, em vez de avançar o plot da minha vida, me mudei para Recife, onde passei 14 anos antes de vir para o Rio de Janeiro. Mediante análise aprofundada de mapas do Brasil, o leitor atento percebe que Recife é muito mais longe de São Paulo que o Rio de Janeiro. Parece insanidade porque é.

E agora, no Rio de Janeiro há 3 anos, me vejo de malas prontas para São Paulo, como um múltiplo retirante que se recusava a aceitar o próprio destino, como se São Paulo não fosse o destino óbvio desde sempre. Agora, minha finalidade predeterminada se aproxima.

Se existe uma coisa que me irrita profundamente é o pacing da minha vida. O plot da minha existência simplesmente não avança num compasso adequado, evoluindo paulatinamente. O personagem principal, eu, sequer mostra sinais de desenvolvimento. Se sua existência não fosse tão inextricavelmente ligada ao meu senso de self, certamente eu já teria dropado a série.

Minha vida, eu diria, é mal escrita, mal dirigida. São Paulo finalmente me permitirá explorar o endgame content.

Nunca houve qualquer outra alternativa, porque enquanto escritor, eu faço parte da classe de empregados em trabalhos artificiais keynesianos. O único lugar que sustenta pesos sociais dessa laia é a terra da garoa. São Paulo juntou uma massa crítica de gente como eu, nódulos no multiplicador monetário, assalariados que servem apenas para receber dinheiro, passá-lo para frente e aumentar o fator de velocidade da moeda.

Eu gostaria de encontrar um throughline, uma linha temática que amarre todos os eventos de 2018. Como millennial, minha existência se dá em estado de fluxo. Meu sonho era conquistar estrutura. Uma casa, uma família; a confiança reconfortante no fim do dia que meu lugar na ordem geral das coisas estava assegurado.

Fracassei. Não consegui construir nem uma casa, nem uma família, nem estabelecer um status quo seguro. O que eu sempre busquei foi a certeza de que minhas ações são causa e têm efeitos determinados. Assim, eu poderia me estabelecer objetivos claros, trabalhar em direção a eles e, finalmente, retornar ao status quo: minha casa, meu lar, minha família, um porto seguro.

Todos os eventos fazem sentido numa escala impossivelmente grande. A batalha humana é comprimir uma estrutura que faz sentido em termos universais para uma escala microscópica que encaixe num cérebro primata. É fútil.

Essa é a lição de 2018. O tempo foi destruído. Embrace the random.

Feliz 2019.

24 de dezembro de 2018

Como fazer sua pirâmide



Neste thread, descobri que agora os esquemas de pirâmide evoluíram para incorporar a estética feminista. Ao invés de te prometer Rolex e andar de Porsche, como a Hinode, a Mandala dos Sonhos (ou Tear dos Sonhos, ou Mandala da Prosperidade; tem algumas variações sobre o mesmo tema) promete empoderamento e apoio às minas, ou quem sabe às manas.

Em discussões sobre pirâmide, claro, aparece sempre algum otário que está sendo ativamente extorquido pelo esquema para defendê-lo. Não é diferente aqui: rolando a página para baixo você já consegue rapidamente uma infeliz que foi engambelada. A parte boa, porém, é sua estética na defesa do esquema: ocorre que o sistema capitalista em si é uma grande pirâmide, porque existe uma minoria que ganha mais acima de todos nós. Assim, claramente não há diferença entre esquemas Ponzi e desigualdade de renda na sociedade. Afinal, a Mandala dos Sonhos sequer é no formato de pirâmide, mas no formato de mandala (você começa nas extremidades e gradualmente se aproxima do centro, claro).

Fiquei fascinado com uma pirâmide que adota todas buzzwords feministas (sororidade, união feminina, luta contra o patriarcado, todas juntas), porque, obviamente, esquemas de pirâmide convencionais adotam uma estética geared para a pobreza. Falam em pagar boleto, em fazer grandes viagens, em cruzeiros, em carros espetaculares; desejos tão distintos, mas ao mesmo tempo tão básicos, fundantes da identidade do indivíduo que podem ser facilmente manipulados pela pirâmide.

Se para pobres o desejo ativado é um e para feminista é outro, mas o resultado piramidal é o mesmo, estava pensando numa estética para adotar para um esquema Ponzi bro normie. Ao invés de formato pirâmide ou formato mandala, meu esquema teria formato campo de futebol. Você começa no meio do campo, mas gradualmente se aproxima das extremidades, para marcar o gol.

Se na Hinode ou Herbalife, os níveis têm nomes como "Diamante Ultra Plus Black" e "Duplo Platina Master", no meu esquema campo de futebol não-pirâmide, os níveis teriam nomes como "zagueiro", "ala", "marcador", "atacante", "craque", "artilheiro", "bola de ouro". Ao invés de enfatizar viagens de cruzeiro, que são fantasias das classes baixas, neste caso podemos falar de viagens a Ibiza, clubes, mulheres. Acho que já cheguei a um conceito vencedor, vou fazer o site.

Feliz Natal a todos.

Don't apologize



Qualquer recomendação, resenha, comentário ou discurso público que mencione JRPGs tem que, necessariamente, falar que adotam ou não as mecânicas datadas que são típicas do gênero. Nenhum outro gênero parece sofrer disso -- nem mesmo aqueles que são efetivamente datados e menos populares. É uma impressão geral que eu tenho, mas não quero ter que procurar exemplos. Se você de alguma maneira pensa que já viu esse discurso repetido pela internet, prossiga.

É difícil encontrar alguém que critique as mecânicas gerais de text adventures -- é um gênero de nicho com características próprias, seria borderline insano exigir que ele fosse adaptado a sensibilidades modernas. O mais provável é que o próprio jogador deva se adaptar aos tropes & ropes do gênero; o cérebro humano possui plasticidade, é possível se colocar num estado mental capaz de aproveitar mídias em outros termos.

A questão é mais profunda, contudo: JRPG parece ser o único gênero de videogame em que suas próprias características são detestadas no discurso público. Tudo que torna JRPGs JRPGs é reviled. Batalhas em turno? Datadas. Encontros aleatórios? Terríveis. Histórias lineares? Deveriam ter ficado nos anos 90.

Imagino que boa parte desse discurso parta de reviewers profissionais de jogos. Gente que é paga para jogar a maior quantidade de videogames possível, detesta a cadência desacelerada de JRPGs e se acostumou a achar que "variedade" dentro de jogos é um fator inexoravelmente positivo -- o que explica as perpétuas notas altas de jogos em que as atividades que ocupam a maior parte do tempo são absolutamente genéricas, como os da Rockstar.

É curioso notar que jogos que adotam tantos tropes datados, como Final Fantasy VII, ou Dragon Quest VIII, ou mesmo Pokémon, ainda são amplamente jogados, venerados, destrinchados. Gêneros modernos, por outro lado, que adotam as mais novas tendências do design de jogos, no entanto, parecem não resistir por muito tempo.

Onde ficaram todos os cover shooters de 3 anos atrás? Pra onde foram todos os console FPSs com HP regenerativo? Os novos Final Fantasies, com suas lutas tão cheias de ação, não parecem ter o mesmo staying power de Final Fantasy VI, com sua ATB e plot linear.

O discurso sobre JRPGs precisa evoluir -- o que significa voltar para os anos 1990. Como Octopath Traveler, JRPGs não precisam se esconder e o gênero pode ser recomendado sem nenhuma ressalva. E se o próximo Dragon Quest vier sem batalhas em turno, a culpa vai ser do Polygon.

16 de dezembro de 2018

A look back



Terminei meu autodesafio, escrever todos os dias por um mês. Por que eu fiz isso? Porque eu cansei do grind diário da minha vida e queria voltar a ter este outlet criativo. Realmente sentia falta de escrever -- e escrever sem muita preocupação -- e essa foi uma das coisas que o desafio me mostrou: eu precisava produzir sem limitações.

Outra coisa que o mês me mostrou foi que eu passei a pensar diferente. Desde sempre, meu approach com este blog foi simplesmente deixar que aparecessem Coisas Para Escrever. Eu nunca sairia do meu caminho, os posts seriam equivalentes a uma revelação divina. Daí sua infrequência durante tantos anos.

Era um jeito errado de encarar este blog. Este blog sempre foi um escape. Outros sites abrigam meus escritos sérios -- e meu day job também requer que eu escreva. Mas aqui? Aqui era pra eu simplesmente escrever whatever, sem qualquer constraint ou pressão. O erro é imaginar que, por não ter que escrever neste blog, eu não deva. Que o que eu escrevo em outros lugares é meu trabalho sério ou worthwhile. Não. Aqui está o writing que eu consigo dizer que é realmente meu. Se nós precisamos gastar 10.000 horas numa habilidade para dominá-la, eu posso dizer que já dominei escrever; mas não escrever do jeito que eu quero, aqui. Ainda preciso de umas milhares de horas neste blog.

Digna de nota é a minha percepção do que significa escrever. Mentalmente, eu passei a classificar as experiências diárias como eu as escreveria. Isso derrubou a barreira entre o mundo e o que eu escrevo. Qualquer coisa é digna de estar aqui, precisa só do meu input criativo.

Apesar dos atrasos, das course corrections e dos demais problemas off-blog que tive ao longo do mês, a experiência foi das melhores. Agora, como eu disse em outro post, vou trabalhar pra mover todo o conteúdo daqui para o meu próprio servidor, porque não há mais esperança para o Blogger. Quero fazer um trabalho melhor de preservar tudo o que eu já produzi. So, let's do it.

14 de dezembro de 2018

On sight



Andando pela rua, vi uma criança segurando uma espada recortada em papelão. Ele segurava a espada na frente do próprio corpo. Sem enxergar bem, eu não entendia o que estava acontecendo, era como se o universo estivesse censurando a criança. Na maior parte do seu corpo, eu conseguia ver todos os detalhes, mas, sem entender que era uma espada recortada em papelão na frente do seu corpo, parecia que um trecho de sua existência tinha sido blurred, censurada, estava com uma cor uniforme demais. Até que eu entendi que era uma criança segurando uma espada recortada em papelão.

Em certo momento de Boston Legal, depois de Denny Crane admitir que tem Alzheimer e decidir não tomar mais remédios, ele diz que aprecia o fog. O fato de ele não conseguir acessar toda a sua memória, ou todo o seu repertório emocional, se torna, para ele, uma pequena bênção. Um descanso, um alívio das angústias diárias. Em vez de se importar com a continuidade, Denny agora tem o salvo conduto para simplesmente agir, sem o peso do passado.

O mais próximo que eu chego disso é indo para a academia, quando decido não usar óculos. Com 3 graus de astigmatismo em cada olho, o mundo se torna um blur. A interação é limitada e esse pequeno fog me agrada. Só ver as formas gerais das figuras, não se focar nos detalhes. Estar liberado do peso da concentração.

Minha vida é gasta na frente de telas. Trabalho e entretenimento mediados por telas brilhantes. Um computador numa mesa, iPad, celular. Mesmo ao se desligar das telas, ler, eu estou comandando a minha visão. Ter algo para guiar a visão o tempo inteiro é overwhelming. Imagino que audiobooks sejam uma alternativa. Já ouvi que os gráficos da imaginação são melhores do que qualquer explosão de efeitos visuais, mas o que sempre me atraiu naquilo que eu visualizo mentalmente é a indefinição. A mutabilidade.

11 de dezembro de 2018

A internet decidiu coletivamente hog minha visão a todo o tempo. I'm fighting back and you should too



De forma um tanto curiosa, o desenvolvimento e streamlining das plataformas de publicação de vídeo na internet aparentemente foi concomitante com o interesse exclusivo das audiências por vídeos. Não áudio, jamais textos; apenas, tão somente, vídeo. Parabéns ao Empreendimento Humano por tão rapidamente captar o desejo exclusivo da sociedade de nunca mais consumir nada em formato não-audiovisual.

O famoso pivot to video, propalado pelo Facebook, que agora recebe processo dos descamisados que antes focavam em outras mídias, sempre foi baseado numa farsa. Que teria sido percebida facilmente se a internet, como os demais movimentos coletivos humanos, não funcionasse à base de histerias e passos em manada.

Vídeos são como um bebê que chora e precisa de atenção imediata. São, efetivamente, a mídia mais heavy handed. São consumidos em pedaços grandes, que frequentemente não podem ser repartidos. Têm um throughline específico e um pacing que requer que sejam assistidos de uma só vez.

Compare com textos, livros, quadrinhos e, por que não?, música. Estas são mídias mais suaves. Elas não requerem 100% da sua atenção a todo momento. Podem ser consumidos, geralmente, em nacos menores. Podem ser deixados de lado sem grandes consequências e retomados sem causar maiores danos. Recompensam a atenção não-dividida e o investimento ininterrupto, mas não punem pelo não-compliance.

Vídeo, por outro lado, tem um piso rígido para a atenção requerida. Assim, as empresas fazem vídeos, com produções cristalinas, aumentam seus custos e não alcançam o público. Como?

Perceba que a expansão de "vídeos" efetivamente se deu não com conteúdo que se beneficia da visualidade. Podcasts, vídeos "analíticos", reviews, streams de videogame. O conteúdo predominante do YouTube e toda a base do Twitch é de conteúdos de baixa demanda -- grande parte dos quais poderia ser facilmente traduzido em texto. É como se, coletivamente, tivéssemos só agora descoberto a fórmula do sucesso de Big Bang Theory -- o fato de que a maioria das pessoas deixa a TV ligada em um episódio sem prestar completa atenção. Porque é possível entender um episódio nesses termos.

Anos atrás, na histeria pré-vídeo, com áudio no formato podcast, Welcome to Night Vale ganhou notoriedade. Li os scripts, achei interessante, por vezes excepcionalmente clever. Decidi ouvir o podcast. A cadência não me desceu. Não conseguia escutar a voz do narrador. Desisti. Mas o texto tinha apelo. Eu poderia continuar a consumir o podcast em seu formato legado, apesar da insistência da internet.

E se o portal de notícias decidiu que eu posso gastar 8 minutos assistindo a um vídeo em vez de publicar textualmente a informação, eu casualmente declino e aperto o pause.

Learning not to be ill



Pouco mais de três anos atrás, no dia 19 de agosto de 2015, operei minhas costas para curar uma hérnia de disco. Não funcionou, eu escrevi whining and moaning about it. Mesmo depois de substituir meu disco fissurado que se encontrava entre as vértebras L5 e S1 por um disco sintético afixado por parafusos de titânio, minhas costas pareciam ainda sofrer, o nervo ciático ainda se sentindo empurrado por um abaulamento inexistente.

Fui em médicos; todos me disseram que não havia nada de errado. Minhas costas, estruturalmente, estavam perfeitas. Eu não devia sentir dor, embora ela estivesse lá. Uma dor fantasma, talvez, a sofrência de algo que desaprendeu a ser saudável.

Um problema é que você se acha incapaz de dizer que melhorou; você sabe que sente dores, mas como dizer se estão mais brandas do que antes da cirurgia? Se dizer que piorou, é sinal de capitulação. Tudo que você fez foi em vão, todo o sofrimento acessório à cirurgia, toda a recuperação, todo o trabalho pra convencer o plano de saúde a gastar alguns milhares de reais na empreitada.

Então você se convence, como eu me convenci, de que, não sendo perfeita, era uma situação um pouco melhor, uma elevação da utilidade, meu ótimo de Pareto. Mas eu continuava a sentir dor.

Porém, sem nem me dar conta, as dores foram se moderando, tornando-se ocasionais, cedendo em seu relentless drive. Talvez a fonte da dor de fato não exista há 3 anos, mas só agora meu cérebro aprendeu que não deve mais sentir nada na região e meu ciático se acostumou a não ser pressionado pelo disco lesionado.

Essa dor, this fucking pain, é uma chaga na minha vida há mais de meia década. Desaprendi a viver em liberdade. A não estar sempre consciente do meu desconforto presente ou potencial. Minha grumpiness está sempre pronta para assomar à face ao primeiro sinal de dor de coluna.

And yet, agora essa muleta, pouco a pouco, vai sumindo. Já posso ir na academia sem maiores restrições. Finalmente faço atividade física por tempo estendido, levanto peso. Faço a posição do Alá, alongamento de coluna, mais como ritual diário, não porque é estritamente necessária ao bem estar.

Funnily enough, indo a uma academia de jiu-jitsu para sondar preços, falo da minha insegurança com o professor, que diz que todo jiteiro tem várias hérnias de disco anyway, então não é um big deal. Fiquei absolutamente horrorizado com aquela menção e mentalmente já me fechei à possibilidade da prática do esporte.

Mas esse é um receio que não me cabe mais. Vivi por anos no regime do medo, resignado ao destino de que meu corpo ia me falhar. Não é mais o caso.

Quem tem o corpo saudável -- no sentido de funcionalidade, sem dores ou limitações específicas, não com um significado vago de wellness -- normalmente não percebe suas práticas diárias vêm do hábito de não ter limitações. E eu percebo que preciso reganhar esses hábitos porque desaprendi a funcionar.

Sobre Newtypes e Alaya-Vijnana systems



A presença dos Newtypes, humanos com habilidades psíquicas expandidas, em Mobile Suit Gundam, de fato empresta certa poesia ao fato de que se trata de uma série sobre os horrores da guerra (com a presença de robôs gigantes, máquinas de combate mortíferas à mesma medida que vendáveis em forma de brinquedos). Os Newtypes, especialmente os mais desenvolvidos, têm amplas habilidades empatas. São capazes de perceber outros indivíduos espacialmente e se comunicar mentalmente, de forma somewhat limitada.

Ironia fundamental em Gundam é o fato de que, como uma série de guerra, essas habilidades, essencialmente construtivas e potencialmente conciliadoras, são usadas para a guerra. A rivalidade principal da timeline original de Gundam, entre Amuro e Char, ocorre basicamente por um desentendimento. Como Newtypes, ambos seriam capazes de perceber com maior acuidade os reais sentimentos um do outro, mas isso jamais acontece.

Quando aparecem logo no final da série original de 1979, os Newtypes parecem um plot device sem qualquer signficado. De fato, sua inclusão nas demais séries de Gundam parece ser uneven, mas o diretor, Yoshiyuki Tomino, parecia estar consciente da contradição fundamental no âmago dos Newtypes serem tratados como soldados. A primeira personagem com habilidades especiais que vemos, afinal, Lalah Sune, é absolutamente pacífica e é jogada no meio da guerra como retribuição ao apoio que Char lhe deu ao longo da vida.

Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans, uma série em um universo paralelo que recicla alguns temas da original, tem o sistema Alaya-Vijnana em vez dos Newtypes. Como os poderes psíquicos Newtypes, o Alaya-Vijnana permite que os pilotos dos robozões sejam máquinas de guerra muito mais eficientes. É um plugue implantado diretamente na coluna do paciente e permite que máquinas sejam conectadas diretamente ao piloto, para dar uma interface de controle imediato através do sistema nervoso.

Mas, em contraposição aos Newtypes, o implante AV é como uma estrela amarela, uma marca das classes inferiores. O perigo da cirurgia do implante indica a falta de valor da vida dos que são sujeitados a ela. Os que recebem o implante com sucesso ganham valor como trabalhadores, mas apenas enquanto puderem executar os trabalhos mais perigosos.

A contraposição dos dois conceitos me parece interessante. Enquanto o Newtype é, em essência, um sistema de comunicação humana elevada, o AV é um sistema de comunicação com máquinas. Há uma divisão intensa entre a comunicação humana, nuançada e imperfeita, e o infodump dos robôs gigantes, em comunicação direta com a coluna cervical dos pilotos.

Enquanto a guerra, no Universal Century, com a presença dos Newtypes parece uma fatalidade evitável, no universo de Iron-Blooded Orphans, o implante do AV em membros da underclass é sua metonímia.

10 de dezembro de 2018

Marketing singularity



Vendo anúncios de produtos como o FreeCô, dá pra presumir que nós estamos vivendo numa realidade totalmente moldada por Nathan For You, onde todo aspecto da existência é perfeitamente saturado de marketing; um mascote pra uma parada que você borrifa no vaso parece algo exaustivamente colocado à prova em A/B testing; o site do produto é perfeitamente moderno, amplamente ilustrado; você pode comprar caixas com dezenas de frascos, existe um programa de assinatura, há um kit com uma necessaire que vem com um cocô mascote de pelúcia.

A certo ponto, a sátira perde totalmente o sentido. A Amazon já casualmente reportou que empregou os preceitos de The Movement para uma de suas entregadoras.

Se os recursos do design servem para instrumentalizar os impulsos humanos generalizados, o marketing parece viver sob a ilusão de que, se perfeitamente manicurar uma marca, não um produto, ela realmente vai dizer algo. Departamentos de marketing ficam obcecados com cores, com palavras proibidas, em inspirar os consumidores. Produtos sequer entram na equação.

Acomete-me o sentimento de que, chegando a dezembro, eu já assisti à 15ª revolução tecnologica, uma completa destruição criativa, uma disruption que reorganizou os dados do mercado. Sim, um novo aplicativo entrou no mercado e, com ele, as pessoas podem conversar umas com as outras através de uma interface de chat. Uma singularidade do marketing. Imagine as oportunidades.

Em 2019, nada pode parar a carreata de inovações através de novos aplicativos de chat.

7 de dezembro de 2018

Internet analytics are a sham



Analytics dão às pessoas a sensação de que elas têm um controle muito grande sobre o próprio sucesso, quando a verdade é que o que o determina é uma série de fatores fora do controle do autor.

Produtores de vídeos para o Youtube, streamers, escritores, personalides do Twitter -- todos pensam que, com as ferramentas adequadas de visualização da audiência, com dados, vão conseguir prever quais os fatores preponderantes para o sucesso. Os números dão uma ideia de objetividade, de preditividade óbvia: mas são apenas a faceta visualizável de um sucesso que, até onde sabemos, pode ser once in a lifetime.

Não só: mesmo com essa capacidade, que vão conseguir reproduzir infinitamente os fatores que levaram ao sucesso inicial, como se a capacidade humana de replicar os fatores sensíveis que levam ao spread de algo fosse infinita, ou que a audiência vai sempre buscar as mesmas características que levaram ao sucesso no princípio.

Existe uma indústria inteira baseada nessa ideia: social media, onde eu já trabalhei. É requerido de você que publique relatórios mensais, semestrais, anuais, sempre mostrando "crescimento" de alguma forma em indicadores como likes, visualizações, minutos assistidos, permanência na página, etc.

Sinto que a busca pela bala de prata é perpétua e que inevitavelmente termina numa conclusão simples, que apenas se tivesse sido seguida poderia ter mudado todo o rumo do sucesso do conteúdo na internet. O marketing pago não foi suficiente? Pôsters não foram colocados em locais apropriados? O thumbnail não funcionou corretamente? Não houve uma mensagem chamativa o suficiente?

Hoje em dia, estou mais confortável com o fato de que quase tudo está fora das minhas mãos. A única coisa que eu, de fato, controlo é o quanto eu escrevo. O gap entre as mentes das pessoas é um obstáculo insuperável, mas com iterações suficientes, nós nos aproximamos. Ser prolífico é a única resposta.