20 de novembro de 2018

Never pay your dues



Aconteceu: 242 pessoas entraram neste blog hoje. Em geral, não presto atenção para esse tipo de estatística; este blog vive abandonado há 10 anos, testemunha ocasional de um arroubo de semicriatividade. Duzentas e quarenta e duas pessoas não é um número impressionante -- é baixo, em termos de internet, irrisório. Mas digno de nota, porque eu não imaginava que entraria tanta gente. Chutava cerca de 30 pessoas, todas caídas por alguma busca irrelevante do Google; 50% seriam frustrados com a cartomante de quem eu escrevi em 2011.

Por anos, fui fascinado com a ideia de pay your dues: o sucesso não é automático e claramente é necessário agonizar por anos no anonimato, não só para construir sua reputação, mas também para encontrar sua voz, sua identidade criativa. É uma forma bonita, clean, de colocar o desenvolvimento criativo, profissional, whatever. Americanos, sinto eu, são intuitivamente capazes de construir sistemas simplificados para qualquer empreitada.

Imagino que essa ideia tenha algo a ver com a fascinação natural que eles (os americajin) têm pela ideia de identidade. Meu trabalho, como manifestação da minha vocação, é parte fundante da minha identidade. As such, eu preciso me encontrar, encontrar meu estilo, antes que eu possa encontrar o sucesso, que é inextricável da minha essência. It fits so neatly, eu sinto que poderia ouvido falar disso num dos vlogs inspiradores do John Green.

Claro, a ideia é perfeitamente falsa. O sucesso é caótico. Ele ocorre -- ou most likely não ocorre -- por motivos aleatórios fora do seu controle. Os criativos da internet atual, aqueles que conseguiram explorar ao máximo os formatos dominantes (streams do Twitch, vídeos do Youtube) contam suas jornadas ao estrelato e elas se tornam gospel. São todas narrativas, stories, com causas delimitadas, definidas pela volição humana. Como Luciano Huck contando a história de Whindersson Nunes, que se alçou da pobreza através de seu sheer power of will.

Aos 31 anos, minhas sensibilidades estéticas já estão mais bem formadas, meu humor estabelecido, minha escrita tem algo que se assemelha a um estilo. Talvez esses fossem os dues que eu tivesse que pagar antes do meu inevitável sucesso, mas duvido. Não acho que minha escrita daqui, nestes termos jamais vá ter amplo apelo. Cumprindo o desafio de escrever todos os dias, porém, percebo que é algo que me dá prazer. Outra coisa que me dá prazer é saber que pessoas entraram aqui diretamente, se interessaram o suficiente em clicar num link que não foi servido pelo algoritmo, com um título previamente mastigado que sumariza todo o conteúdo do texto.

Se eu pudesse assessorar Yang Wen-li no debate com Reinhard von Lohengramm, este seria meu argumento



Legend of the Galactic Heroes (Ginga Eiyuu Densetsu, para os familiares), possivelmente o melhor anime já feito baseada numa incrível série de livros que eu não li, retrata um conflito entre duas pólis (póles?) interestelares. O Império é uma coleção de planetas pouco povoados, semifeudais, governados por elites vassalas com sensibilidades germânicas; a Aliança é uma república metropolitana democrática, comparativamente menor em extensão e em número de planetas, mas aparentemente mais densa. Quando passamos a acompanhar a série, o Império tem uma população de cerca de 25 bilhões de pessoas, enquanto a Aliança conta cerca de 15 bilhões de cidadãos.

As quarenta bilhões de cabeças, na verdade, são um agudo declínio desde o apogeu da espécie humana sob o Império, que unificava 120 bilhões de habitantes sob um só estado, espalhados em, presumivelmente, centenas de planetas. Difícil imaginar algo de maior escopo, números tão colossais, distâncias tão abissalmente grandes. LoGH é hard scifi; seu conceit é transplantar conflitos tipicamente terrenos para um plano cósmico. Existe um problema básico com esse approach.

* * *

Statelessness é anátema ao estado-nação moderno. Um estado é limitado apenas, tautologicamente, pelos próprios limites, que são dados por outro estado, que funciona como espelho na fronteira. Não há uma área ajurisdicional, porque essas áreas se tornam automaticamente tributárias ao estado mais próximo (a contiguidade também é muito cara para a aceitação cognitiva do estado moderno).

Se você olhar para um mapa político da Antiguidade, provavelmente vai notar que os estados simplesmente cessam, mesmo sem um limite físico aparente, e sem a força de outro estado para empurrá-lo de volta. Parte disso tem a ver, obviamente, com a geografia física: controle efetivo é necessário para a existência da jurisdição. Se seu reino é tecnologicamente incapaz de cruzar (ou se estiver desinclinado a custear uma jornada para cruzar) as cadeias montanhosas do Cáucaso, é até ali que seu poder político vai.

E o poder político periférico simplesmente breaks down. Um líder político só consegue permanecer no topo através de uma partilha efetiva do poder e dos espólios; e a unidade estatal permanece enquanto houver um sistema de vassalagem vantajoso. Próximo aos centros de poder, esse arranjo normalmente permanece, mas quanto mais um estado se expande, mais se torna óbvio para os vassalos distantes que eles não precisam compartilhar nenhum poder, nenhum espólio com a metrópole. Se os romanos enfatizavam a construção de estradas para facilitar o acesso da metrópole às colônias, era porque reconheciam esse fato fundamental.

Percebo que a grande vitória do estado moderno tenha sido estabelecer sistemas duradouros de partilha de poder, evitando a trituração dos estados em milhares de polities.

* * *

Um mapa político moderno é propaganda, porque não estipula os limites reais do estado; ele aceita claims de jurisdição westphalianos que são prima facie falsos. Se o estado brasileiro alega ter jurisdição sobre toda a área do Rio de Janeiro, essa é uma óbvia mentira. O Rio de Janeiro é particionado entre os níveis oficiais do estado (governos municipal, estadual, federal) e forças informais (notoriamente os vários grupos de traficantes e as milícias). Ocasionalmente o estado tenta invadir os territórios de forças concorrentes, mas geralmente falha por uma combinação de problemas tecnológicos, culturais e geográficos. Como um oceano ou uma cordilheira são um limite físico duro ao poder estatal, um settlement numa montanha de pedra no meio da cidade também é.

James C. Scott, que eu mencionei ali embaixo noutro post, talvez se sentisse à vontade para observar que o estado brasileiro só se afirma no asfalto -- nas áreas planas. As áreas planas são as áreas de legibilidade; suas vias se dispõem da forma que o estado compreende. Sua produção econômica é grande o suficiente e visível o bastante para ser acessível ao estado. A vida da favela não segue o fluxo racional da burocracia.

Ou seja, no Rio de Janeiro, como no Brasil de forma geral, o estado moderno falhou porque seus mecanismos de vassalagem falharam. A centralização política não foi capaz de partilhar um poder de forma a manter a unidade.

* * *

O que me joga de volta ao começo: dois monolitos estatais interestelares desafiam a suspensão de descrença. Mesmo com faster than light travel, os mecanismos de controle político se quebram naturalmente. Em estados compostos por dezenas de planetas povoados, a simples distância, o mero drift cultural pulveriza o controle político. No começo de LoGH, ocorre inclusive uma rebelião dentro do Império: uma das colônias tenta declarar independência, mas é rapidamente subjugada. Claro, o governo central certamente é mais forte que uma simples colônia, mas no mundo real não é essa a questão que se coloca. Ninguém nega que o governo brasileiro seja mais forte militarmente que gangues de traficantes, and yet elas mantêm o controle de grandes nacos do Rio.

* * *

LoGH, de forma interessante, quaint, traz uma visão clássica do que significa a guerra: uma briga irrelevante entre elites. Ao longo da série, o povo, principalmente no Império, se mostra apático a quem toma o poder. Mesmo a população na Aliança, mais tarde, pouco reage a uma mudança de governo. De fato, com 15 bilhões de habitantes, one wonders qual a representatividade possível de um sistema político unificado nessa escala.

E se o estado não se pulveriza é porque, no longínquo futuro, a humanidade pode ter adquirido nível suficiente de esclarecimento para perceber que o governo, francamente, não importa.

19 de novembro de 2018

Ao ler este texto, você me transfere dinheiro em proporção direta à atividade captada nos seus neurônios



Entro em uma loja, espero ser atacado por tentáculos que se fixam no meu crânio. Com um só movimento, eles inserem suas agulhas em meu cérebro, eletrodos para deep brain scans, se alojam nos slots que foram cirurgicamente implantados em minha cabeça. Olho um produto e, antes mesmo que eu me dê conta, meu dinheiro já foi sacado e prontamente colocado à disposição do empresário. Com uma descarga elétrica dissonante do meu cérebro, a loja leu meus desejos e percebeu que eu gostaria de comprar seus produtos & serviços. Concomitantemente, meu dinheiro é automaticamente baixado de minha carteira na blockchain e adicionado aos fundos da empresa.

A Comunidade Humana juntou suas melhores mentes e decidiu que o problema mais premente, a questão mais urgente, a dor social mais latejante que se deve solucionar é a falta de meios de pagamento africcionais. Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay não passam de concessões, etapas intermediárias no desenvolvimento dos modos de pagamento. Como podemos ficar satisfeitos com essas soluções? -- pergunto eu. Não podemos.

Precisamos de uma utopia quando se trata de pagar contas. Por meio desta correspondência, jogo meu chapéu no ringue das propostas de payment apps que olhem para o futuro, livres do peso do que veio antes. O estado da arte dita que abandonemos nossos cartões plásticos ativados via PIN e adotemos a confirmação dos pagamentos via smartphone; trata-se de uma evolução farsesca que não chega ao core do que significa querer dar dinheiro muito mais rápido para uma empresa.

Penso em algo melhor. Uma proposta future-proof. Ao sair do útero, o bebê deve ser sujeitado a uma leitura preditiva de suas ondas mentais. Seu perfil cerebral, ato contínuo, é enviado à nuvem, onde será analisado e serão determinados seus desenvolvimentos, desejos e demandas futuras. O Sistema cruza as referências da rede neural com dados passados, de imediato cobra o crédito de todo o consumo que será performado pelo humano em toda a sua vida. O nascituro nasce em dívida e paulatinamente quita sua dívida, conectada a seu DNA, ao longo de sua existência.

Numa só tacada, removemos toda a ineficiência de fazer pagamentos através de milhões de iterações ao longo de nosso lifespan. A humanidade, finalmente, poderá se concentrar nas atividades pilares do ordenamento da rotina: trabalho e consumo. Simultaneamente, ninguém mais receberá salários, porque seus rendimentos são automaticamente utilizados para amortizar a dívida contraída no momento do nascimento; e, ao consumir, não é necessário executar o stopgap de um ritual de pagamento.

Machine learning ainda garante que, com o conhecimento dos desejos mais íntimos do ser humano, a classe capitalista seja finalmente empoderada para atender todas as nossas necessidades no momento em que sejam apresentadas. Nunca mais teríamos que nos deparar com a frustração da inexistência de um produto numa prateleira -- qualquer bem já terá sido produzido e enviado para sua residência no momento a manifestação de sua demanda, como predita pelo algoritmo.

17 de novembro de 2018

Eu não quero pagar por nada, eu só quero um jeito de baixar um Whopper via torrent



Speed Talker Mark Zuckerberg, o do filme, não o real, o que é interpretado por aquele moleque de queixo fino cujo nome eu esqueço, disse, em uma das mais memoráveis citações de The Social Network, que os sujeitos que o interpelavam na ação judicial não faziam ideia do nível de trabalho avançado que ele estava desenvolvendo e ao qual ele poderia estar se aplicando, se não estivesse sendo injustamente detido em processos frívolos. Pelo menos eu acho que foi assim, nem vou olhar no IMDb. Me parece uma pretensão comum de tech workers, de que o trabalho que desenvolvem é tão elevado, quando as features avançadas que estão sendo adicionadas à experiência humana são a habilidade de selecionar entre cinco tipos de reações a uma mensagem em vez de apenas o like.

Empresas de tecnologia também parecem hellbent em me oferecer novas formas de pagamento para as coisas. Atualizo meu celular, a contragosto, e a Samsung recoloca o Samsung Pay escondido na parte inferior da tela. Se eu havia optado por desativar o Samsung Pay antes da atualização, ele retorna como uma fênix para saber se eu mudei de ideia. Ainda não aceita nenhum dos meus cartões.

O mercado de soluções de pagamento via celular me faz sentir desconectado da experiência dos fellow humans, espécie da qual eu faço parte, sem nenhuma dúvida. Prometem uma experiência mais rápida, fácil, sem esforço na hora de pagar, mas eu nunca fiquei acordado à noite pensando em como poderiam ser otimizados os passos envolvidos em dar dinheiro pra um comerciante. O processo de colocar um cartão numa máquina e digitar um código de 4 números deveria ser suficientemente simples, mas claramente apenas tolos pensam dessa forma. Em realidade, se trata de mais uma atividade que eu aceito impensadamente, que tem muito a ser polida e um longo caminho para se tornar perfeitamente africcional.

Quanto tempo tempo combinado, em man-hours, nós coletivamente gastamos fazendo pagamentos, laboriosamente digitando 4 números de um PIN repetidamente, por dias, anos e, agora, décadas. O salto tecnológico que poderiamos ter dado (medido em features adicionadas ao Facebook) se não fosse essa ineficiência fundamental; choro de pensar na tragédia.

16 de novembro de 2018

Rascunho de um ensaio sobre a distribuição de poder



James C. Scott observa, em The Art of Not Being Governed, que a territorialidade dos estados do sudeste asiático no período pré-moderno podia ser visualizada como uma série de círculos em volta das capitais dos reinos, que buscavam perpetuamente expandir sua influência e, frequentemente, chegavam ao domínio reclamado de outro reino. O mapa da região, assim, seria um diagrama de Venn de jurisdições concorrentes, que variam no tempo de acordo com a capacidade extrativa de um estado.

Num território acidentado como do Sudeste Asiático, um período de monções podia tornar simplesmente inviável o exercício do state-making numa região "pertencente" ao reino: coletores de impostos simplesmente não conseguem extrair o excedente para a capital.

Scott é cuidadoso em delimitar suas observações ao passado; para ele, o estado-nação centralizado moderno certamente é capaz de controlar todo o território que é definido numa cor uniforme num mapa mundi. Mas eu não sou um scholar, não tenho nenhum cuidado. De fato, o mapa mundi moderno é uma fraude.

Isso é trivial quando pensamos nas dezenas (centenas? milhares?) de disputas territoriais no mundo que são planificadas sob uma cor só nos mapas aprovados. Obviamente Taiwan não é China. Mapas são, também, propaganda. Talvez sejam primariamente propaganda.

Isso me faz pensar na uniformidade com que se trata o Brasil -- principalmente pelo fato de que, pelo menos nos últimos 100 anos, não há qualquer esforço separatista real. No entanto, o estado brasileiro é fragmentado.

Estados são sempre exercícios no estabelecimento de vassalagens. Os países desenvolvidos aparentemente foram capazes de estabelecer sistemas de vassalagem sofisticados, em que as periferias estão plenamente integradas ao poder central. Países como o Brasil não conseguem fazer o mesmo. Os sistemas de power stacking dentro do estado ainda são primitivos.

Acabo de notar que este texto vai ter uns 40 parágrafos, então retorno ao assunto amanhã. Vou desenhar uma linha de coerência entre os temas de que quero tratar.

15 de novembro de 2018

Pitch de cenário para algum livro, se você quiser escrever (royalty-free)



Tenho uma ideia para algo de ficção, que provavelmente serviria para algum tipo de novel que eu provavelmente nunca vou escrever, quem sabe um conto ou algo um pouco mais mais curto; certamente não um desses blog posts que eu excreto em 3 parágrafos. Might as well throw it in here. Quem sabe até o final do mês eu não reviva a ideia porque tenho que cumprir a promessa do texto diário. Mas não sei o que fazer com ela no momento.

Tem um conceito interessante que foi introduzido com as Silver Age comics da DC de que os heróis da Golden Age não só viviam numa realidade paralela (Earth Two), mas suas histórias eram contadas em revistas do mundo dos heróis da Earth One. Conceito fascinante, IMO envelheceu muito bem -- as HQs são basicamente uma janela interdimensional, um BBB multiversal. As revistinhas são o pay-per-view que te oferece os snapshots de outros universos. Great shit.

Pensei num setting ficcional que usasse esse conceito: de que toda a nossa ficção é uma janela para uma realidade paralela; só que eu poderia jurar que isso já foi feito elsewhere, embora eu não saiba onde, e francamente não tenha procurado com muita força -- se você souber quem já foi ousado o suficiente para escrever sobre, me avise.

Só que, conquanto a ideia me pareça suficientemente interessante em si, ela também tem um fator passé que eu não consigo explicar, parece terreno batido, um clichê, muito apesar de eu não conhecer histórias assim. Talvez seja uma overdose minha de histórias sobre multiverso, who the fuck knows.

De qualquer forma, o plano não apenas estabelecer que qualquer obra é uma janela multiversal como os quadrinhos dentro das Silver Age comics, mas também estipular que as menções aos personagens ficcionais da obra sejam pesados na representação desse mundo paralelo.

Veja: existe algo fundamentalmente errado, eu diria, com a ideia de que você pula para outro universo e ele é basicamente igual ao nosso, mas tem uns personagens fictícios walking around -- contando obviamente que o cenário seja um quase-espelho do nosso mundo com algumas diferenças minoritárias em termos de tecnologia.

Porque, claro, você pode pular num livro da Agatha Christie hoje, mas a não ser pelo fato de que histórias aconteceram, nada estaria diferente na sua vida. Você ainda estaria no Rio de Janeiro, talvez tivesse que acordar cedo pra pegar o BRT. Possível que o RioCard ainda funcionasse no mundo paralelo.

Não: se você pula num livro da Agatha Christie, todo mundo tem que ser obcecado por Hercule Poirot. Você passeia pela rua e todas as pessoas ao redor parecem estar obcecadas com o bigode do sujeito. Especulam sobre vários assassinatos, de Roger Ackroyd, no Expresso Oriente, sobre uma morte no Nilo.

Como aquele GIF que mostra a Terra de acordo com a força dos campos gravitacionais em cada região, o mindshare dos mundos paralelos deveria ser dominado pelos personagens que são de fato abordados naquele universo dentro dos livros.

Se outras dimensões têm uma cultura inteiramente shaped pela ficção em que esses mundos foram introduzidos, interdimensional travel vale a pena. Da mesma forma, se você cai numa Terra em que as Tartarugas Ninja existem, mesmo que esteja em fucking Duque de Caxias, todas as conversas deverão estranhamente arremeter de volta ao assunto "mutantes em Nova York". Porque se nós lemos sobre algum personagem em algum lugar, é de fato por que aquele era o fato mais importante ever going on in the world, e a cultura daquele planeta reflete esse fator.

Conceito divertido, me parece.

Porque pra estar num universo em que qualquer história ou personagem é irrelevante, é só voltar pro mundo real.

14 de novembro de 2018

Achou que eu não conseguiria postar no dia 14, interlocutor imaginário suspeitamente standoffish? Achou errado. Contra tudo e contra todos, jogo mais esta pérola aos porcos



Os poucos infelizes que ainda se aventuram a entrar neste blog, ou caem por aqui por alguma Google malfunction, já que eu caguei pra SEO, certamente ainda não se irritaram com meu snark a respeito do discurso prevalente em social media. Me ocorre, portanto, falar mais uma vez de social media.

Num chute selvagem, violento e um tanto deselegante, eu diria que 90% do discurso político é simplesmente a afirmação de que existem pessoas com uma worldview discordante. Com 15 anos de redes sociais nas costas, a humanidade ainda se surpreende com a variedade da Opinião Humana. E, com essa diversidade assombrosa, aparentemente basta mencionar que existem pessoas que pensam de um jeito para escandalizar a audiência.

Quer dizer -- e agora vou ser nojentamente wishy-washy, but bear with me -- desses 90%, provavelmente uma metadinha deve ser gente reclamando que os jornalistas têm alguma opinião. Choro perpétuo nos extremos da parte horizontal do eixo político, ainda surpreende tanto incautos como veteranos que jornalistas possam ser de esquerda, ou direita, ou mesmo que tenham posições inconsistentes de direita ou esquerda.

Que a esquerda sempre ficou sendo a fucking baby about, there's no question; mas a direita se apropriou da técnica, assim como da maior parte do guidebook da esquerda, a bem da verdade. Oh, não, esse jornalista não coaduna suficientemente das minhas visões lixo, ele abordou a questão a partir de sua própria ideologia, poor me.

Anos atrás, Deirdre McCloskey fazia propaganda de seu livro Bourgeois Virtues em uma palestra qualquer, não lembro direito, mas aí começava a falar que o discurso humano geral é plenamente autorreferencial, we talk about talk. Minha mente juvenil de, até onde eu posso conceber, 5 anos atrás, achou aquilo uma ofensa. Falar sobre fala? Sobre discurso? Sem referência ao real, ao palpável, ao sólido, ao universo que existe lá fora, em sua concretude absoluta? Preposterous. Retrospectivamente, eu era apenas uma criança dominada por devaneios randianos.

Era incrível que alguém formado em comunicação e obrigado a ler Análise do Discurso por anos pudesse ficar tão pessoalmente ultrajado com aquilo, e de fato ela se mostrou certa & presciente. Nada mais importa a não ser a hermenêutica mais basal, mais pobre e subterrânea, a releitura infinita da leitura do jornalista sobre um fato, que provavelmente foi wished into existence pela fala de outra nulidade (o presidente).

Por muitos anos, me recusei a escrever como neste texto, nessas generalidades. Percebam que eu falei de opiniões gerais, não citei ninguém, tentei evocar uma observação subconsciente no leitor. Se você já não havia observado tudo que eu descrevi aqui, todas as linhas deste texto não passam de puro nonsense.

É o que eu chamo de Artifício Social Media, em que se fala de algo que é apenas apreendido perifericamente por um interlocutor imaginário. Sob o Artifício Social Media, todos estão falando sobre o mesmo assunto a todo momento, sem parar, compartilhando do mesmo terreno de batalha necessariamente.

It doesn't stop there: nenhuma das opiniões que flutuam em social media jamais foram held por alguém de carne e osso. As respostas apenas boiam no éter para serem rebatidas. A esquerda acha X e o oposto de X ao mesmo tempo! Gotcha! A direita pensa Y e no entanto executa não-Y on a regular basis!

É um soco no estômago depois do outro em opiniões políticas distintas provavelmente sustentadas por humanos diferentes em diferentes pontos do tempo, mas que foram aglomeradas sob o mesmo guarda-chuva de Opinião do Grupo.

Agora entendo por que escrevem assim. The righteousness high is better than sex.

13 de novembro de 2018

Infinite jest



Há quantos anos a internet se tornou infinite scrolling? 10? 15? Se antes eu tinha que batalhar pelos pequenos esguichos de dopamina, clicar links, talvez até parar para pensar no que seria interessante, os sites -- by which I mean os cinco sites da internet que ainda existem e são utilizados -- já foram convertidos em perfectly oiled scrolling machines.

Neste mês, fantasiei que meu cérebro havia deixado de metabolizar, produzir, processar, seja qual for o verbo relativo a, dopamina. O rolamento vertical finalmente perdera o efeito.

Como um bodybuilder incapaz de produzir testosterona depois de anos de ciclagem, eu me tornei incapaz de derivar prazer do simples ato de scroll, o qual havia substituído hábitos mais trabalhosos, como o ofício criativo de escrever, ou consumir long form content. Meu enjoyment foi desconectado inteiramente do bite-sized content redirecionado em social media e havia, até mesmo, infectado o que eu sentia em relação a mídia de forma mais geral.

Viciado, abatido, continuei a procurar um alento nos conteúdos reempacotados do Facebook, Youtube, com suas linguagens homogeneizadas, sem sucesso. Nenhum post standoffish direcionado a ninguém em particular, mas a toda uma massa de leitores anônimos, podia me salvar. Nenhum vídeo com mais de uma palavra capitalizada no título teria efeito.

A complacência matou a internet, e eu tive que parar de scroll e clicar no botão Next.

As good a day as any



Comprei um teclado mecânico, gamer, com LEDs sob as teclas, porque precisava de uma mudança apreciável no meu statu quo de escrita. Digito estas palavras após setar um perfil de iluminação no software oficial de controle. A cada letra que eu bato, acompanhada por um satisfatório click, uma onda de luz vermelha reverbera em um círculo que se abre, como as ondas de uma pedra que quica na superfície da água.

Sou um maestro, digito e meus dedos causam ondas, externalidades no universo, é como se, enquanto autor, eu agora estivesse em contato com o próprio tecido universal. A cada datilografada, eu formato a estrutura da Criação itself.

Não poderia estar mais feliz com minha compra. Perceba a viagem que meus dedos fazem antes de tocar o fundo do teclado. Ao me expressar pelo computador, tenho uma experiência táctil superior, um banho de ergonomia que se impõe pela minha mão, domina meus braços, faz um shibari em meu tronco, antes de me libertar para experienciar a vida doutra forma, mais livre, mais gentil, mais ortopedicamente adequada.

Porém, entro em fóruns. Meu teclado usa microswitches Cherry MX Red, o que significa que sua ativação ocorre com uma compressão de 1,2 mm. Se eu tivesse, com este conhecimento, comprado um teclado com microswitches de variedade Cherry MX Brown, sua ativação seria em 2 mm completos. O teclado talvez não tivesse sensibilidade tão grande. Possivelmente, tenho uma experiência inferior à ótima.

Estou de volta à hedonic treadmill.

Não foram sequer 3 horas e já retornei a meu starting point. Perdi o acesso a insights elevados. Digito e o click das teclas sequer me parece diferenciado. Poderia estar usando um qualquer teclado com tapete de silicone, quase um botox em forma de periférico, que não veria diferença.

Mas agora vou escrever. A partir de hoje vou escrever todos os dias, por um mês, já que tenho 31 anos e esse tipo de promessa é a única coisa que ainda pode me motivar. Ao fim deste mês, terei postado neste site mais do que nos últimos 5 anos combinados, o que me faz rir uma risada que só poderia ser descrita com a palavra chortle. Might as well start on a Tuesday.

6 de outubro de 2018

10,000 city-states



Em falta de um princípio geral norteador da identidade brasileira, eu havia concluído desde muito tempo que a real identidade brasileira é buscar sua identidade numa tentativa decrépita de dar sentido ao estado nacional. Sem um mito fundador, o brasileiro sempre sentiu o pecado original da falta de justificativa étnica para seu subdesenvolvimento. O brasileiro é, acima de tudo, um fudido, mas se sua miséria é justificada pela união cultural do Povo em torno do Estado-Nação, ao menos ele passa a crer que vive no melhor dos mundos possíveis.

Refratário à ideia de que o estado foi imposto e permaneceu como um parasita, uma toxoplasmose em escala massiva, o brasileiro finalmente encontra sua unidade na guerra política, nonde o Cidadão pode finalmente esquecer que se aplica a uma empresa essencialmente pointless e dedica-se a derrotar o Inimigo.

*

Desafia a compreensão o que ora ocorre no Brasil, onde, como por encanto ou imperscrutável produto da fortuna, quem vota num candidato elege outro inexoravelmente outro.

Eleitores de Ciro Gomes garantem que o voto em Haddad, por eleitores do Haddad, elege Bolsonaro. Meanwhile, eleitores de Marina Silva, Alckmin, et al., vaticinam que o voto em Bolsonaro elege Haddad. É o milagre da transubstanciação do voto. Trata-se de um prodígio da imaginação, talvez alguém devesse verificar o código da Urna Eletrônica Brasileira.

Noto que é uma das certezas absolutas do universo, em que você vota no candidato que prefere, mas sempre acaba contribuindo para a eleição de seu pior pesadelo. Com mais iterações desta eleição certamente o Eleitor Brasileiro será capaz de eleger acidentalmente Yomagn’tho, o devorador das estrelas.

*

Afinal, se o meu candidato tivesse mais votos em vez de menos, ele venceria o outro candidato, que eu odeio, mas teve mais votos. Talvez se as pessoas que votaram em outro candidato, em quem eu não gostaria de votar, votassem no meu candidato instead, este estado de coisas cruel & para todos os efeitos lamentável se teria sido evitado.

Flawless reasoning, é quase como se a democracia não refletisse os desejos do público, I wonder se alguém já teve essa ideia.

*

De vez em quando leio algum economista falando sobre problemas de coordenação da democracia, da ignorância racional do eleitor, sobre como a democracia não garante a não captura do aparato estatal por special interests. Concordo com tudo, me compadeço, chuto pedrinhas com o pensamento de que o estado não é apropriadamente representativo dos anseios do povo, mas chega a eleição, começa uma histeria do caralho e eu só acho que o eleitor tem que se fuder mesmo, who the fuck cares.

A população tem que ser totalmente gadificada pelo marketing político. Formatada e encaixotada como a massa bestializada que é. Permanentemente usada por identidades patéticas criadas por um publicitário.

Sendo a etnia Han um produto doutrinário do estado chinês para disciplinar as massas ignaras, uma espécie de halitose política, nada mais justo, necessário e desejável que uma lorota identitária para demarcar o pasto onde seu eleitorado se alimenta.

*

Que Haddad é um sujeito minúsculo, é óbvio, mas o mais fascinante é perceber que Bolsonaro é igualmente microscópico.

Bolsonaro não tem uma frase, um chavão, uma tirada, uma colocação espirituosa, um jogo de palavras. Não tem um momento marcante. Um discurso que mobilizou as massas. Nada que o destacasse em qualquer aspecto. Bolsonaro se resume a “militar”. É sua única qualificação para existir. Sua justificativa transcendental; ele é militar. Não “foi”, há 30 anos. Ele é.

Esquerdistas o classificam como fascista, o que ele provavelmente é, mas que também não o coloca essencialmente longe da esquerda, sem perceber que nenhuma ideia cola nele porque ele jamais teve alguma.

Como um mascote dos anos 90, como um Mario da política, Bolsonaro não tem nenhuma característica singular. Seu trope é ser o everyman, com apenas um descriptor: militar. O vulgo se identifica com a completa mediocridade de Bolsonaro. Até o fato de nunca ter feito nada na Câmara é um aspecto endearing. Se eu fosse deputado, também não faria nada.

Chester Cheetos tinha mais backstory que Bolsonaro.

Sua retórica é perfeitamente medíocre. Não fala bem, gagueja, mas não é escandaloso o suficiente pra stand out. Levou uma facada e ficou sem fazer campanha, mas ninguém sentiu falta, porque Bolsonaro não gera nenhum conteúdo da Campanha Bolsonaro.

É mistificadora a popularidade de Bolsonaro porque poderia ter sido qualquer um. Por acaso, foi o Capitão. A fanbase de direita criou todo o conteúdo memético e o impôs a Bolsonaro. Ele só teve que replicar meia dúzia.

Jair Bolsonaro provavelmente é uma AI responsiva ao hivemind da direita. Felizmente, ele não precisa ter medo de ser parado pela Turing Police, porque, não sei se você sabe, ele é militar.

23 de maio de 2017

O algoritmo é meu blankie



Em nosso país, pessoas vivem com medo de sair nas ruas, de não ter o pão de cada dia, da violência e do abandono, talvez também das opiniões políticas durante um almoço ou jantar familiar, mas o que me aterroriza é entrar no Youtube e não estar logado. Vejo todos os vídeos trending do Brasil, estupefato, tento desviar o olhar, mas é impossível: é como ir observar uma tragédia, um acidente de carro na rua.

Fico paralisado, espasmodicamente tento clicar no botão de login, voltando para o conforto dos vídeos similares que eu assisto, o algoritmo enquanto safe space, mas vejo thumbnails horrendos dos vídeos que a massa vê no Brasil. Títulos necessariamente em maiúsculas, imagens que ainda usam as imagens da "turminha dos memes", como se estivéssemos em 2013. Rafinha Bastos e Danilo Gentili são presença garantida, certamente algo sobre Bolsonaro, muitos vídeos de Minecraft, gols do Fantástico com Tadeu Schmidt, Felipe Neto (sim).

Muito se fala sobre a criação de bolhas, ninguém quer ter suas visões desafiadas e sair do conforto das próprias opiniões, e é verdade, porque eu vi o mundo real por baixo do algoritmo e escolhi o algoritmo. We have met the enemy, and he is them, fuck no it isn't me.

16 de setembro de 2016

Quando o feminismo foi longe demais



Em uma época na qual o que mobiliza os corações mais simplórios redes sociais são disputas entre milk shakes de redes de fast food, é importante que marcas de maquiagem como a Quem disse, Berenice? coloquem o pau na mesa e façam campanhas que fazem as perguntas difíceis.

Pode querer ter filho? Pode. Pode não querer ter filho? Também pode. Foda, feminismo redux, parabéns à consultoria de marketing feminista por ser uma risk taker, trendsetter. Mais marcas deveriam estar nessa vanguarda.

Próximas perguntas da campanha:

  • Mulher pode votar? Pode. Mulher pode não votar? Pode (R$ 3,50 de multa).
  • Mulher pode ter propriedades? Pode. Mulher pode não ter propriedades? Pode muito.
  • Mulher pode se divorciar? Pode. Pode continuar casada? Também pode!
  • Mulher pode sair à noite sem o marido? Pode. E com o marido? Ah, se não pode!

  • É assim que eu gosto da minha publicidade, ativismo e posicionamento sobre questões muito atuais, controvérsias presentes na vida pública.

    Infinitas possibilidades, tudo sempre questionando as barreiras impostas pela sociedade ao feminino enquanto vende maquiagem.

    Considerando sua faceta edgy recém-descoberta, acho até que a Quem disse, Berenice? acharia 100% kosher mandar umas paradas tipo "Mulher trans é mulher? Sim, fodam-se as radfem", "Aborto até 9 meses? Pode, sim" (se mandassem essa última, eu comprava as porcariadas deles pra distribuir na rua).

    Eu quase consigo imaginar o brainstorming dos infelizes da agência de publicidade que fizeram essa merda, anotando as paradas mais mongolóides pra sinalizar o pertencimento da marca aos anos 10.

    Couch activism é coisa do passado, 2016 vai ficar marcado mesmo como a era de ouro do low stakes activism.

    15 de setembro de 2016

    Golpe, eterno devir



    As Testemunhas de Jeová sempre estão postergando a data da volta de Jesus porque ele nunca realmente volta. Achavam que seria em 1878, depois em 1881, 1914, 1918, 1925 e 1975.

    O golpe, por outro lado, sempre começou numa data anterior. Nós achávamos que o golpe tinha apenas sido iniciado em 2016 com a deposição da Líder Suprema Dilma Rousseff, mas na verdade a articulação vinha desde 2015, ou talvez 2014 com a reeleição. Na verdade, tudo começou com o julgamento do mensalão de 2010, que já deu as bases pra destruir o PT.

    Se pensar em termos mais amplos, porém, o golpe começou em 2006, com o próprio Mensalão, que jamais foi provado. Ou melhor, por que não, começou com a sabotagem do Fome Zero em 2005, incorporando-o ao Bolsa-Família.

    Talvez o golpe tenha começado em 2002, com o ressentimento das elites pela eleição de LILS.

    É possível, ainda, que o golpe seja um estado permanente. Como a revolução trotskista só era possível em constante renovação, o golpe também é recorrente e jamais termina. Não há começo e fim do golpe, ele é um fluxo, como o ciclo da água, interminável, sempre renovado.

    O golpe não é apenas uma ocorrência, mas uma ideologia (golpismo), um pensamento que perpassa gerações, desvinculado de qualquer fato em si. Os golpes enquanto acontecimentos foram apenas manifestações do Golpe real, ideal.

    O golpe é como uma entidade em 4D da qual nós, presos em 3 dimensões espaciais, só conseguimos ver uma manifestação incompleta e ocasional.

    Deve ser entendido como atemporal, até inevitável, o golpe nem mesmo precisa de pessoas, porque é atrelado à organização lógica do universo.

    O movimento do golpe é tão inevitável quanto o movimento das placas tectônicas. É irredutível.

    O golpe não acontece. O golpe é.

    11 de setembro de 2016

    Entrevistando adolescentes de 17 anos com camisa dos Ramones no Lollapalooza



    — Você conhece alguma música dos Ramones?
    — De quem?
    — Da banda da sua camiseta.
    — Não.
    — [Vira] Corta aí, esse vai pra edição. Já foram 10 imbecis que não conhecem a banda.
    — Por que você está usando uma camiseta listrada?
    — ...
    — Você conhece a história da moda ou está fazendo um fashion statement sem conhecer o conteúdo por trás dos padrões que veste?
    — É uma camiseta listrada sem maior conteúdo interpretativo, semioticamente irrelevante.
    — O vídeo que você vai publicar de mim presume que minha prerrogativa de utilizar uma roupa está sujeita ao meu conhecimento aprofundado sobre os códigos representados nela. Acho que você deveria tirar sua roupa.
    — Seu argumento quer justificar a alienação completa, a falta de engajamento do ser humano com o objeto utilizado. Se a pessoa não conhece os códigos sensíveis impressos na sua camisa, por que usá-la? Se, pelo contrário, não for requerido um conhecimento mínimo daquilo com que temos contato na vida, não se trataria de uma existência irrefletida e, portanto, sem valor?
    — Se sua ideia requer o envolvimento intelectual & cultural com os objetos com que nos relacionamos, justificando assim o seu emprego, qual o seu nível de conhecimento a respeito da tecnologia de amplificação de áudio que você está usando para gravar a minha voz? E sobre o cinema, que emprestou a você e a seu colega as técnicas de gravação de imagem? Conhece a história e os desdobramentos da tecnologia? Quais os contextos que os tornaram possíveis?
    — Ora, mas isso é irrelevante porque não trata do conteúdo que produzo, mas de sua forma.
    — Fair enough, então qual a profundidade de seu conhecimento narrativo e sobre as técnicas de humor que você vai empregar para me humilhar na internet? Seu conhecimento é meramente técnico e reprodutivo? Por que essas técnicas têm ressonância psicológica?
    — Não é necessário conhecer os elementos constitutivos do humor, narrativamente ou psicologicamente, para conhecer empiricamente o que engendra o riso.
    — Também não é necessário conhecer uma banda para ter fruição estética com o uso de uma camisa com a sua estampa.
    — Existe qualquer exercício estético no uso de referências imagéticas sem conteúdo?
    — Quem disse que são sem conteúdo? Minha fruição não tem absolutamente nada a ver com a musicalidade da minha camiseta. What gets me off é o pertencimento à tribo, é poder vir a um espetáculo de música e estar próximo a meus amigos. A camisa é um signo desse pertencimento, nada mais. Ela não dá qualquer informação extra sobre mim, nem mesmo sobre qual é a minha filosofia estética geral; ela apenas informa que eu sou seguidor de certa moda, em determinado contexto, dadas dinâmicas sociais específicas.
    — Você, portanto, recusa uma extrapolação identitária que o enquadre como hipócrita por não conhecer determinados signos culturais que supostamente estaria vindicando.
    — Precisamente.
    — Advoga uma fluidez identitária radical, segundo a qual minhas conclusões primeiras a respeito de você jamais seriam capazes de carregar qualquer mérito.
    — Sim. Minha camisa pode representar que sou fã dos Ramones, mas também que eu apenas gosto de camisetas pretas e formatos circulares. Talvez eu seja um typography nut e goste do arranjo da fonte. Eu posso ouvir Luan Santana, Anitta, Wesley Safadão, Wilco, Sex Pistols, nada disso tem qualquer materialidade ou consequência maior.
    — O público para quem eu produzo esse tipo de vídeo, porém, vê estreita relação entre diversos nodos filosóficos e estéticos, incapaz de desatar o uso de uma camiseta do hasteio dela como manifesto cultural.
    — Eu sei. Você e seu público são imbecis.

    23 de agosto de 2016

    Genialidade



    Existem gênios precoces na matemática, na física, na música. Peças incríveis compostas aos 7 anos, doutorados concluídos aos 12, mas onde estão os gênios do secretariado?

    É pedir demais um guri de 15 anos que virou o mundo da biblioteconomia de cabeça pra baixo?

    O mundo da terapia ocupacional jamais será o mesmo depois das descobertas fundamentais desta criança de 11 anos.

    Sacaneiam os trabalhos de pós em humanas, só que devia rolar mais desses mestrados escrotaços, desses doutorados que soam muito idiotas e saem no G1. Passou da hora de uma evolução (quase coloquei um "r" entre parênteses antes) fodona em como encaramos a hotelaria. Análise crítica da hotelaria. Um perceptivo ensaio sobre a ontologia da hotelaria. Novas fronteiras do conhecimento do turismo (hehe).

    A socialização ocidental não permite a genialidade em humanas, impede o surgimento de prodígios onde ora só se fuma maconha e faz ciranda, and I for one will not stand for it.

    "Ah, mas os gênios da física vão solucionar a nossa futura crise energética. O que um gênio do secretariado vai solucionar?"

    Amigo, eu saberia se nossa sociedade não DESPREZASSE esse conhecimento.