16 de setembro de 2016

Quando o feminismo foi longe demais



Em uma época na qual o que mobiliza os corações mais simplórios nas redes sociais são disputas entre milk shakes de redes de fast food, é importante que marcas de maquiagem como a Quem disse, Berenice? coloquem o pau na mesa e façam campanhas que fazem as perguntas difíceis.

Pode querer ter filho? Pode. Pode não querer ter filho? Também pode. Foda, feminismo redux, parabéns à consultoria de marketing feminista por ser uma risk taker, trendsetter. Mais marcas deveriam estar nessa vanguarda.

Próximas perguntas da campanha:

  • Mulher pode votar? Pode. Mulher pode não votar? Pode (R$ 3,50 de multa).
  • Mulher pode ter propriedades? Pode. Mulher pode não ter propriedades? Pode muito.
  • Mulher pode se divorciar? Pode. Pode continuar casada? Também pode!
  • Mulher pode sair à noite sem o marido? Pode. E com o marido? Ah, se não pode!

  • É assim que eu gosto da minha publicidade, ativismo e posicionamento sobre questões muito atuais, controvérsias presentes na vida pública.

    Infinitas possibilidades, tudo sempre questionando as barreiras impostas pela sociedade ao feminino enquanto vende maquiagem.

    Considerando sua faceta edgy recém-descoberta, acho até que a Quem disse, Berenice? acharia 100% kosher mandar umas paradas tipo "Mulher trans é mulher? Sim, fodam-se as radfem", "Aborto até 9 meses? Pode, sim" (se mandassem essa última, eu comprava as porcariadas deles pra distribuir na rua).

    Eu quase consigo imaginar o brainstorming dos infelizes da agência de publicidade que fizeram essa merda, anotando as paradas mais mongolóides pra sinalizar o pertencimento da marca aos anos 10.

    Couch activism é coisa do passado, 2016 vai ficar marcado mesmo como a era de ouro do low stakes activism.

    Quando o feminismo foi longe demais



    Em uma época na qual o que mobiliza os corações mais simplórios redes sociais são disputas entre milk shakes de redes de fast food, é importante que marcas de maquiagem como a Quem disse, Berenice? coloquem o pau na mesa e façam campanhas que fazem as perguntas difíceis.

    Pode querer ter filho? Pode. Pode não querer ter filho? Também pode. Foda, feminismo redux, parabéns à consultoria de marketing feminista por ser uma risk taker, trendsetter. Mais marcas deveriam estar nessa vanguarda.

    Próximas perguntas da campanha:

  • Mulher pode votar? Pode. Mulher pode não votar? Pode (R$ 3,50 de multa).
  • Mulher pode ter propriedades? Pode. Mulher pode não ter propriedades? Pode muito.
  • Mulher pode se divorciar? Pode. Pode continuar casada? Também pode!
  • Mulher pode sair à noite sem o marido? Pode. E com o marido? Ah, se não pode!

  • É assim que eu gosto da minha publicidade, ativismo e posicionamento sobre questões muito atuais, controvérsias presentes na vida pública.

    Infinitas possibilidades, tudo sempre questionando as barreiras impostas pela sociedade ao feminino enquanto vende maquiagem.

    Considerando sua faceta edgy recém-descoberta, acho até que a Quem disse, Berenice? acharia 100% kosher mandar umas paradas tipo "Mulher trans é mulher? Sim, fodam-se as radfem", "Aborto até 9 meses? Pode, sim" (se mandassem essa última, eu comprava as porcariadas deles pra distribuir na rua).

    Eu quase consigo imaginar o brainstorming dos infelizes da agência de publicidade que fizeram essa merda, anotando as paradas mais mongolóides pra sinalizar o pertencimento da marca aos anos 10.

    Couch activism é coisa do passado, 2016 vai ficar marcado mesmo como a era de ouro do low stakes activism.

    15 de setembro de 2016

    Golpe, eterno devir



    As Testemunhas de Jeová sempre estão postergando a data da volta de Jesus porque ele nunca realmente volta. Achavam que seria em 1878, depois em 1881, 1914, 1918, 1925 e 1975.

    O golpe, por outro lado, sempre começou numa data anterior. Nós achávamos que o golpe tinha apenas sido iniciado em 2016 com a deposição da Líder Suprema Dilma Rousseff, mas na verdade a articulação vinha desde 2015, ou talvez 2014 com a reeleição. Na verdade, tudo começou com o julgamento do mensalão de 2010, que já deu as bases pra destruir o PT.

    Se pensar em termos mais amplos, porém, o golpe começou em 2006, com o próprio Mensalão, que jamais foi provado. Ou melhor, por que não, começou com a sabotagem do Fome Zero em 2005, incorporando-o ao Bolsa-Família.

    Talvez o golpe tenha começado em 2002, com o ressentimento das elites pela eleição de LILS.

    É possível, ainda, que o golpe seja um estado permanente. Como a revolução trotskista só era possível em constante renovação, o golpe também é recorrente e jamais termina. Não há começo e fim do golpe, ele é um fluxo, como o ciclo da água, interminável, sempre renovado.

    O golpe não é apenas uma ocorrência, mas uma ideologia (golpismo), um pensamento que perpassa gerações, desvinculado de qualquer fato em si. Os golpes enquanto acontecimentos foram apenas manifestações do Golpe real, ideal.

    O golpe é como uma entidade em 4D da qual nós, presos em 3 dimensões espaciais, só conseguimos ver uma manifestação incompleta e ocasional.

    Deve ser entendido como atemporal, até inevitável, o golpe nem mesmo precisa de pessoas, porque é atrelado à organização lógica do universo.

    O movimento do golpe é tão inevitável quanto o movimento das placas tectônicas. É irredutível.

    O golpe não acontece. O golpe é.

    11 de setembro de 2016

    Entrevistando adolescentes de 17 anos com camisa dos Ramones no Lollapalooza



    — Você conhece alguma música dos Ramones?
    — De quem?
    — Da banda da sua camiseta.
    — Não.
    — [Vira] Corta aí, esse vai pra edição. Já foram 10 imbecis que não conhecem a banda.
    — Por que você está usando uma camiseta listrada?
    — ...
    — Você conhece a história da moda ou está fazendo um fashion statement sem conhecer o conteúdo por trás dos padrões que veste?
    — É uma camiseta listrada sem maior conteúdo interpretativo, semioticamente irrelevante.
    — O vídeo que você vai publicar de mim presume que minha prerrogativa de utilizar uma roupa está sujeita ao meu conhecimento aprofundado sobre os códigos representados nela. Acho que você deveria tirar sua roupa.
    — Seu argumento quer justificar a alienação completa, a falta de engajamento do ser humano com o objeto utilizado. Se a pessoa não conhece os códigos sensíveis impressos na sua camisa, por que usá-la? Se, pelo contrário, não for requerido um conhecimento mínimo daquilo com que temos contato na vida, não se trataria de uma existência irrefletida e, portanto, sem valor?
    — Se sua ideia requer o envolvimento intelectual & cultural com os objetos com que nos relacionamos, justificando assim o seu emprego, qual o seu nível de conhecimento a respeito da tecnologia de amplificação de áudio que você está usando para gravar a minha voz? E sobre o cinema, que emprestou a você e a seu colega as técnicas de gravação de imagem? Conhece a história e os desdobramentos da tecnologia? Quais os contextos que os tornaram possíveis?
    — Ora, mas isso é irrelevante porque não trata do conteúdo que produzo, mas de sua forma.
    — Fair enough, então qual a profundidade de seu conhecimento narrativo e sobre as técnicas de humor que você vai empregar para me humilhar na internet? Seu conhecimento é meramente técnico e reprodutivo? Por que essas técnicas têm ressonância psicológica?
    — Não é necessário conhecer os elementos constitutivos do humor, narrativamente ou psicologicamente, para conhecer empiricamente o que engendra o riso.
    — Também não é necessário conhecer uma banda para ter fruição estética com o uso de uma camisa com a sua estampa.
    — Existe qualquer exercício estético no uso de referências imagéticas sem conteúdo?
    — Quem disse que são sem conteúdo? Minha fruição não tem absolutamente nada a ver com a musicalidade da minha camiseta. What gets me off é o pertencimento à tribo, é poder vir a um espetáculo de música e estar próximo a meus amigos. A camisa é um signo desse pertencimento, nada mais. Ela não dá qualquer informação extra sobre mim, nem mesmo sobre qual é a minha filosofia estética geral; ela apenas informa que eu sou seguidor de certa moda, em determinado contexto, dadas dinâmicas sociais específicas.
    — Você, portanto, recusa uma extrapolação identitária que o enquadre como hipócrita por não conhecer determinados signos culturais que supostamente estaria vindicando.
    — Precisamente.
    — Advoga uma fluidez identitária radical, segundo a qual minhas conclusões primeiras a respeito de você jamais seriam capazes de carregar qualquer mérito.
    — Sim. Minha camisa pode representar que sou fã dos Ramones, mas também que eu apenas gosto de camisetas pretas e formatos circulares. Talvez eu seja um typography nut e goste do arranjo da fonte. Eu posso ouvir Luan Santana, Anitta, Wesley Safadão, Wilco, Sex Pistols, nada disso tem qualquer materialidade ou consequência maior.
    — O público para quem eu produzo esse tipo de vídeo, porém, vê estreita relação entre diversos nodos filosóficos e estéticos, incapaz de desatar o uso de uma camiseta do hasteio dela como manifesto cultural.
    — Eu sei. Você e seu público são imbecis.

    23 de agosto de 2016

    Genialidade



    Existem gênios precoces na matemática, na física, na música. Peças incríveis compostas aos 7 anos, doutorados concluídos aos 12, mas onde estão os gênios do secretariado?

    É pedir demais um guri de 15 anos que virou o mundo da biblioteconomia de cabeça pra baixo?

    O mundo da terapia ocupacional jamais será o mesmo depois das descobertas fundamentais desta criança de 11 anos.

    Sacaneiam os trabalhos de pós em humanas, só que devia rolar mais desses mestrados escrotaços, desses doutorados que soam muito idiotas e saem no G1. Passou da hora de uma evolução (quase coloquei um "r" entre parênteses antes) fodona em como encaramos a hotelaria. Análise crítica da hotelaria. Um perceptivo ensaio sobre a ontologia da hotelaria. Novas fronteiras do conhecimento do turismo (hehe).

    A socialização ocidental não permite a genialidade em humanas, impede o surgimento de prodígios onde ora só se fuma maconha e faz ciranda, and I for one will not stand for it.

    "Ah, mas os gênios da física vão solucionar a nossa futura crise energética. O que um gênio do secretariado vai solucionar?"

    Amigo, eu saberia se nossa sociedade não DESPREZASSE esse conhecimento.

    22 de agosto de 2016

    Pesquisas no mundo todo apontam que a primeira lição de pessoas altamente produtivas é ler o máximo possível de artigos sobre produtividade na internet



    Como Peter Parker tenta se livrar da dominação de Venom, eu tento fugir do meu relacionamento simbiótico com o Facebook. Procuro conteúdo fora de lá pra consumir, tipo o monte de artigos que o Pocket me recomenda, mas o problema é que quando você sai do Facebook, todo mundo acha que você precisa de Muito Mais Produtividade. Aí o Pocket força Dicas de Produtividade pra cima de mim. Muitos textos sobre produtividade. Getting stuff done (sigla: GSD).

    Vivendo em 2016, óbvio que todo mundo vai pensar que você é um CEO de startup -- todo mundo que você vê na rua é CEO de startup, não existe um lugar nesse mundão que não esteja povoado de CEOs de startup --, por isso a prioridade do universo é aumentar sua produtividade. E o jeito mais fácil de saber o que fazer é lendo artigos na internet que desviam sua atenção.

    Hábitos que você precisa ter pra ser mais produtivo. Coisas que você tem que parar de fazer pra ter mais produtividade. Apps fuderosos que vão fazer você produzir pra caralho.

    Artigo irado circula por aí falando do guarda-roupa de executivos de sucesso. Tipo, o Mark Zuckerberg só usa camisetas pretas, porque aí ele não tem que pensar no que usar todo dia, aumentando escandalosamente sua produtividade. Muito foda, isso que é otimizar processos. Concluo que o único jeito de ser produtivo é micromanaging coisas irrelevantes tipo a cor da camisa que eu vou usar todo dia. Fique obscenamente rico e se vista que nem mulambo.

    Descobri que o cara que criou o Asana, aplicativo de task management, pega 5 copos d'água no começo do dia e deixa em cima da mesa, pra não perder tempo indo até o bebedouro durante o trabalho. Um exemplo; a vida do maluco deve ser uma ejaculação permanente de produtividade. Um dínamo de criatividade que não pode ser impedido por necessidades de hidratação.

    Embora satisfeito com minha overall improdutividade, já comecei a adotar essas várias dicas na minha vida, por pressão dos artigos recomendados no Pocket. Tenho certeza de que serei uma força em Silicon Valley em alguns anos, quando todos perceberem como me tornei produtivo graças à minha forma 100% otimizada de snort coke.

    9 de dezembro de 2015

    Apropos do impeachment



    Para os governistas do Facebook, o único jeito de a presidente cair é se aparecer uma gravação em que ela recebe sacos de dinheiro com cifrões desenhados do lado de fora de um cara da Odebrecht.

    A Dilma tem que rir malignamente depois de receber o dinheiro.

    O cara da Odebrecht tem que ser um sósia do Dick Vigarista e deve acariciar o próprio bigode e olhar para a câmera antes de entregar a grana.

    Quando a Dilma receber o dinheiro, ela deve agradecer em voz alta dizendo: "Obrigado por este dinheiro sujo, corrupto da Odebrecht. Aceitarei este dinheiro sujo pois sou uma pessoa corrupta que só quer prejudicar o povo brasileiro para benefício próprio. Eu mereceria prisão se me vissem neste momento. Ainda bem que meu ato criminoso e moralmente repreensível jamais será descoberto!"

    Menos do que isso não significa nada.

    1 de dezembro de 2015

    Hitler assassinado



    O progresso da ciência ocorre pela necessidade — e qual não foi a supresa da humanidade ao notar que uma das suas necessidades mais persistentes, a de voltar no tempo e matar Hitler, havia sido atendida.

    Desde 30 de abril de 1945, a humanidade se encontrava bem tristinha, macambúzia, sem saber o que fazer, chutando pedrinhas, porque ninguém mais poderia ter o prazer de tirar a vida do sanguinário ditador. Em 2015, porém, seu desejo foi atendido e as pessoas passaram a formar uma fila para entrar no portal direto para Berlim circa 1933, pós-incêndio do Reichstag, quando Hitler e os nazistas já eram bem ruins, mas não tinha rolado ainda toda aquela parada problemática dos campos de concentração

    (Era uma grande preocupação dos nossos cientistas evitarem que os prospectivos time travelers evitassem qualquer situação pré-crime, de condenar Hitler por crimes ainda não cometidos, mas que ele inevitavelmente cometeria, pois era Hitler. Questão moral, precisamos ter agência e conceder o benefício da dúvida para as pessoas, mesmo que essas pessoas sejam sanguinários ditadores racistas que já cometeram crimes no passado que se tornará o futuro.)

    Apesar dos altos preços da viagem no tempo, acessíveis somente ao 1%, se muito, o número de pessoas que voltou ao passado era espantoso. Famílias inteiras juntaram suas economias de uma vida para enviar seus melhores assassins ao passado. (Judeus curiosamente sub-representados, mas pagaram muitos mercenários para tomarem seu lugar; sempre racionais, não vão se arriscar fisicamente no pretérito quando podem continuar ganhando Nobéis no presente.)

    A surpresa foi generalizada para os viajantes ao perceberem que não haviam sido automaticamente transportados para o gabinete do ditador, mas sim para pontos aleatórios da então altamente policiada e vigiada capital alemã. Entre os milhares de sujeitos, começava então uma corrida para ver quem conseguiria chegar primeiro até Hitler.

    Nesse interim, muitos foram presos. A SS não conseguia compreender donde surgiam tantos revoltosos, a maioria dos quais mal falava três palavras de alemão. As fronteiras estavam seguras, as fábricas tinham olhos, as ruas policiadas. Mesmo assim, brotavam potenciais assassinos do Führer; as autoridades não conseguiam contê-los.

    Os únicos que conseguiam parar os time travelers justiceiros eram os próprios time travelers justiceiros. Conseguiam se identificar e corriam para chegar o mais rápido possível até a sede da chancelaria. Muitos nem sabiam onde se encontrava o tal prédio, agiam em manada, seguiam uns os outros. Logo, milhares de pessoas cercaram o local, prontos para entrar -- mas olharam uns para os outros e perceberam que não teriam o privilégio de matar Hitler por conta própria: teriam que disputar com outros cretinos que total não mereciam aquela glória e alegria.

    Perceberam que seus interesses eram opostos, conflitantes, que o sonho dum era também doutro, que se um seria lembrado no futuro como assassino de Hitler, o outro não seria, que todos a não ser um não chegariam a ser nota de rodapé nos livros de história da época de que saíram.

    Começaram a se matar. Como em Hotline Miami, um golpe era suficiente para matar, porque não tem ninguém tanking neste conto. Alguns usaram tijolos, pedaços de pau, cassetetes que haviam transportado de 2015. Ocasionalmente um sobrevivia mais tempo, agonizava, acabava pisoteado.

    Só um fulano, o cara mais normal, mais mediano e, por isso, imperceptível, passou pelas frestas, adentrou o palácio incólume e chegou até Hitler. Aquele era o momento. Ele poderia vingar todo um povo que viria a morrer num futuro que deixaria de acontecer. Ele poderia ser um herói para sempre lembrado em todos os livros de história.

    Hitler só notou a presença do seu assassino quando ele já erguia a faca que havia trazido. Mas na hora do golpe, Hitler mostrou um lampejo de humanidade em seus olhos. Era notável. O viajante do tempo não conseguiu matá-lo. Percebeu que ali, na verdade, vivia uma pessoa assustada, escrava das próprias ações, uma boa pessoa no cárcere que montou para si mesma, existencialistamente.

    Ficaram amigos. Hitler deixou de ser o ditador maléfico da Alemanha nazista e não chegou a cometer nenhuma das atrocidades por que lembramos dele. Na verdade, se você parar pra pensar, nem deve mais lembrar de fato o que Hitler teria feito, porque suas ditadorzices foram todas apagadas pelo poder da ciência & do amor.

    Com seu novo amigo, Hitler descobriu o poder da amizade, do afeto e do carinho. Não mais tentou dominar toda a Europa pela força, pela violência, tanques e blitzkriegs, mas sim com discursos emotivos, com o coração pulsante, com o poder contagiante de sua bondade. Hitler era um cara carismático, para bem e para mal, e fez questão de exibir seu amigo em toda a sua turnê europeia, que uniu todos os povos sob a bandeira do amor. Toda a questão com a Polônia foi resolvida quando os alemães estacionaram seus Fuscas e deram flores a toda a população. Como André Singer, os nazistas sabiam que, para resolver todo atrito, o que precisava haver era uma aliança de todos, dando as mãos, como amiguinhos, reconhecendo os laços fraternos de toda a vida humana, esquecendo por ora aquela vibe stormfront que tinham encampado no começo como delírios adolescentes.

    Enquanto isso, aqueles que guerrearam na frente do palácio da chancelaria e sobreviveram, os milhares ainda restantes, se recolheram e continuaram a armar. Fundaram, ilegalmente, embora sem repressão -- pois Hitler só acreditava na amizade --, o Partido Antihitlerista.

    Na clandestinidade, não acreditavam nem por um segundo na mudança do ditador, cujas roupas deixavam os tons rígidos e agora adotavam coisas mais carinhosas como o azul bebê, o verde pálido e o rosa calcinha.

    Meses após a mudança, Hitler anunciara que havia dominado toda a Europa -- não pela violência, mas pelo afeto, fazendo com que todos os líderes ocidentais finalmente olhassem nos olhos uns dos outros e se compreendesse. A Europa havia se tornado o "espaço vital" alemão, onde só "vigoraria o amor, para todo o sempre".

    Durante o anúncio da conquista, os membros do Partido Antihitlerista finalmente têm sucesso no assasinato do antes ditador, agora amigo do povo Hitler. Jamais confiaram nos seus novos ideais e, no escarcéu resultante, tomaram o poder. Golpe bem sucedido, nível CIA na Guatemala.

    Sedentos por sangue, os antihitleristas dominaram toda a Europa, governaram com mão de ferro, apossaram-se de todo o aparato educacional, pretendendo ensinar às crianças tudo o que precisam para não se tornarem novos Hitlers, educando-as para os horrores da visão de mundo nazista enquanto punem dissidentes.

    Tudo o que era necessário para que as pessoas se esquecerem-se do pesadelo que foi Hitler foi instaurado: grandes passeatas de lembrança do que Hitler significava, outdoors que forçavam as pessoas a se lembrarem do trauma que Hitler foi, policiamento ostensivo e vigilante de todas as esquinas para evitar o surgimento de novos sentimentos hitleristas.

    Hitler foi destruído.

    10 de junho de 2015

    Não deixa o Conselho Federal de Psicologia saber o que tá acontecendo no futebol da Globo


    Scott Pilgrim knows what's up

    Uma das coisas que mais aprecio, e que tenho certeza que o telespectador desatento da programação do futebol no Brasil jamais nota, é que nossos comentaristas de arbitragem não se atêm a questões meramente técnicas. Não se prendem ao livro de regras. Não pretendem simplesmente dizer que aquela voadora foi falta ou lance-normal-segue-o-jogo.

    Não.

    A melhor parte do comentário nacional sobre a arbitragem de futebol são as análises psicológicas. Uma rica tradição encabeçada por Arnaldo Cézar Coelho que poucas pessoas percebem porque em geral ficam putas com os comentários merdosos que ele faz durante as transmissões de jogos.

    Claro, óbvio que foi pênalti do Daniel Alves no Pogba na final da Champions, e claro que o Arnaldo falou merda dizendo que não foi, mas a melhor parte era quando ele ficava falando que o juiz tava nervoso.

    Frases típicas do comentário sobre arbitragem nacional:
    "Ele tá nervoso, tá perdendo o controle da partida."
    "Agora ele não quer mais saber de jogo, vai apitar tudo."
    "Vai dar 3 minutos só. Ele quer acabar esse jogo logo antes que se complique."
    Gosto desse bate bola do Galvão e do Arnaldo falando das condições psicológicas do juiz. O problema nunca se deve à má aplicação das regras. Os problemas durante a partida são sempre um embate entre a subjetividade do árbitro e a subjetividade dos jogadores.

    É uma coisa bem pós-moderna, bem faculdade de humanas. Arnaldo e Galvão estão discutindo para milhões de pessoas as dinâmicas psíquicas do poder dentro do campo de futebol e ninguém nota essa maravilhosa interação. Se der mole, dava até pra inserir uma citação a Foucault no meio e nem ia ficar deslocado.

    Para a escola Arnaldo Cézar Coelho, o árbitro tem autoridade, mas ele deve exercê-la para não perder. Ele tem que instigar um temor psicológico nos jogadores. Ele tem que "manter o controle" do jogo. E quando ele faz "uma lambança", é porque estava "inseguro" e era psicologicamente incapaz de exercer a função.

    A gente acha que tudo isso é normal, mas é coisa brasileira. Ninguém no exterior fica divagando sobre o estado mental dos árbitros. Pra eles, foda-se, mané autoridade. Para nós, não basta recitar o livro de regras. A gente tem que entender as motivações dos nossos juízes. Só assim a gente consegue racionalizar as decisões bosta que eles tomam.

    É uma inovação da nossa locução esportiva que eu espero que sobreviva ao Arnaldo.

    Mas total foi bem anulado o gol do Neymar de mão. Caralho, tem nem como discutir.

    18 de março de 2015

    Postscript



    E viveram felizes para sempre.

    Foi assim que a história desse casal, homem & mulher, terminou e uma nova fase em suas vidas começou. Antes da frase "E viveram felizes para sempre", os dois passaram por uns maus bocados, te contar. Mas superaram tudo, ficaram juntos apesar de toda a oposição dos inimigos e nunca mais deixaram de ser felizes. Nunca mais.

    "E viveram felizes para sempre" foi um encanto, mais provavelmente maldição. Os dois se tornaram literalmente incapazes de sentir tristeza ou infelicidade.

    Sério. Sua felicidade era inabalável, meio bizarra, assustadora. Amigos comentavam, cochichavam entre si, mandavam fotos no WhatsApp -- e no Telegram que é bem melhor, eram amigos inteligentes for the most part -- mostrando o casal sorrindo, rindo, eufórico, em qualquer situação, especialmente nas mais inapropriadas. Mantinham distância porque tinham medo de serem sugados para a loucura daquela felicidade eterna.

    A mãe do homem morreu, mas ele estava lá no funeral com sua esposa, gritando para os céus que a vida era incrível, o quanto tudo aquilo valia a pena viver, que a morte de sua mãe foi o melhor que lhe poderia ter acontecido, e que no dia seguinte ele estaria mandando um rapel na Chapada Diamantina. Chamou os parentes para participarem. Sua esposa, no mesmo funeral, enfatizou sua alegria por estar presente naquele momento mágico, destacou seu amor pela falecida sogra e anunciou aos presentes sua gravidez. Os presentes, de luto de cima a baixo, não sabiam se felicitavam o casal ou prestavam suas condolências.

    A gravidez foi de trigêmeos. Chegou ao quinto mês, mas a mulher caiu das escadas de seu apartamento. Seu marido ria enquanto a mulher sangrava no chão. "Que maravilha", "que sensação fantástica", exclamavam enquanto o médico fazia a curetagem após o inevitável aborto. Postaram uma foto no Instagram -- a mulher pálida e anêmica, mas com um sorriso de orelha a orelha.

    O casal continuava feliz, sempre. Contra todos os prognósticos, parecia estar cada vez mais satisfeito. O perfil dos dois no Facebook -- sim, como no Orkut, mantinham um perfil de casal --, porém, não mentia. Eles mostravam para todos que estavam felizes, alegres e postavam sobre cada situação, mesmo as mais deprimentes. O que outras pessoas esconderiam na internet, eles usavam no peito como medalha, como prova de que o mundo era benigno. Capotaram o carro certa vez. O carro explodiu e publicaram foto do desastre na timeline falando da beleza do fogo.

    O homem havia se tornado analista de sistemas numa megacorp, amava o trabalho, vestia a camisa da empresa, explodia de emoção a cada exercício de team building dos recursos humanos. Dinâmicas de grupo só lhe davam mais oportunidades para espalhar seu panglossianismo pelos quatro cantos do universo. Seu chefe pedia, como chefes fazem pra não ter que pagar um salário decente, 110% de dedicação. Ele dava 120%. Quando resolveram cortar pessoal, perguntaram se aceitaria 30% a menos no seu salário para continuar com a empresa. Ele falou para reduzirem 50%, porque nós só vivemos uma vez, somos resto das estrelas, o importante é se desapegar e ter em mente o que realmente importa, o milagre que é estarmos vivos.

    A mulher, depois da interrupção da gravidez, voltou a seu trabalho e foi demitida logo a seguir. Era coisa legalmente duvidosa, só que ela não se importava. Estava fisicamente debilitada, mal conseguia andar por muito tempo, mas espiritualmente parecia estar ainda mais contente.

    O casal chegou ao abismo financeiro. Perderam a casa e quando pessoas próximas buscavam ajudá-los, diziam que estavam felizes, bem, nada poderia estar mais perfeito em suas vidas. Suas famílias tentavam intervir, sem sucesso.

    Os pais da mulher conseguiram, finalmente, intervir e enviá-la para instituição psiquiátrica. No manicômio, ainda parecia sorridente a cada vez que era presa a uma cama. Não conseguia falar, dopada, mas seu semblante traía seu entusiasmo por estar naquele local, envolvida por aquelas pessoas únicas.

    Já o homem viveu nas ruas por um tempo. Não sentia falta de sua esposa, porque estava sempre ocupado pensando sobre como vivemos no melhor dos mundos possíveis. Eventualmente foi atropelado enquanto vagava durante uma noite admirando as sombras nas ruas. Seu para sempre terminou ali.